Esse é, sem dúvidas, para mim, o melhor anime de 2023. A premissa já é uma sacada e tanto: a história começa depois da grande aventura.
O demônio foi derrotado, o grupo de heróis voltou para casa com a missão cumprida. Só que Frieren é uma elfa e, enquanto seus companheiros envelheciam, ela continuava jovem.
Décadas passaram como um piscar de olhos para ela e, quando o herói com quem passou anos viajando finalmente morre de velhice, ela se dá conta de algo: mal chegou a conhecê-lo de verdade.
É a partir dessa premissa simples que a série constrói tudo o que tem de melhor. Dali em diante, é como se estivéssemos assistindo a um anime roteirizado por um mestre de RPG: a cada episódio, uma nova sidequest, à medida que vamos conhecendo mais sobre Frieren, esse universo e os novos personagens que são introduzidos.
Diferente da maioria dos animes do gênero de fantasia, Frieren não tem pressa. Não há protagonista gritando o nome do golpe a cada batalha, não há fanservice gratuito para preencher tela, não há aquele momento em que você revira os olhos e decide dar um skip.
O que há é uma boa história sendo contada aos poucos. Personagens carismáticos, mesmo que quase sempre mantenham a mesma expressão; sentimentos que não precisam ser ditos, apenas vividos. Essa é uma história que não vai explicar tudo: você precisa prestar atenção aos detalhes, ao que é falado e até ao que não é.
O worldbuilding foge completamente do costume dos animes de despejar infodump, de personagens pararem para explicar por que estão usando uma magia, como a magia funciona ou como aquele universo opera. Aqui nada é dito de forma expositiva, nada é mastigado; é literalmente o velho e bom show, don’t tell.
As personagens femininas merecem menção especial, o que não é fácil de dizer em um gênero que historicamente trata mulheres como enfeite de cena. Aqui elas têm personalidade, falhas reais, dias ruins, contradições, dias bons, sabem se virar e não precisam o tempo todo de um personagem masculino para salvá-las. São pessoas reais em um mundo de fantasia, não arquétipos.
Visualmente, o anime é uma obra de arte, com uma atenção aos detalhes que beira o obsessivo: a diferença nas mãos dos personagens com o passar dos anos, o objeto que some do armário de Himmel entre uma cena e outra, a sujeira que sobe da roda da carroça. Nada é acidental.
E, quando as batalhas chegam, porque sim, há momentos de luta, afinal isso é uma boa e velha fantasia e uma boa e velha sessão de RPG, a coreografia é de dar inveja. Sentimos o peso dos golpes e das magias, vemos a fluidez da ação e, em especial, cada batalha tem um propósito.
E, às vezes, como a própria Frieren diz, não é necessário lutar; algumas batalhas são impossíveis, então não há problema em fugir.
O ponto mais importante: Frieren não é para quem quer adrenalina imediata, um anime que a todo momento entrega um grande plot twist ou uma cena empolgante que dura minutos e mais minutos. Aqui o combate é rápido, como deve ser, com propósito, e sim, empolga, mas empolga porque é bem feito.
Desde a adaptação de Game of Thrones, fazia tempo que eu não assistia a uma boa fantasia. É um anime lento, contemplativo, que constrói seu mundo e seus laços com calma. Se você topar embarcar nesse ritmo, vai chegar ao final com aquela sensação boa e incômoda ao mesmo tempo, a de que a obra te fez pensar em coisas que você vinha empurrando para debaixo do tapete.
E talvez seja exatamente esse o maior mérito de Frieren.