O sangue escorria pelo meu ombro até o cotovelo. Tentei respirar, mas a fumaça entrou de uma vez e a tosse veio seca, sacudindo meu tórax.
Nada disso, porém, se comparou ao momento em que a mão dele desceu até a ferida no meu ombro e a pressionou.
Meu corpo arqueou contra a parede. Fixei o olhar em um ponto da madeira chamuscada, tentando me concentrar em qualquer coisa que não fosse ele, à medida que passava a bandagem ao redor do meu ombro.
A dor não cedeu e minha mão se fechou ao redor do pulso dele antes mesmo que eu percebesse o que estava fazendo. Ele não se moveu um centímetro, sustentando o contato sem recuar.
— Quer terminar isso logo… — murmurei entre os dentes.
Ele me encarou por um segundo e depois voltou à bandagem sem responder, como se o resto tivesse deixado de existir. Acima de nós, as engrenagens do relógio monumental giravam, e as badaladas marcavam meia-noite.
O espaço mal oferecia um metro livre das chamas. A madeira nas minhas costas aquecia a cada segundo. Do outro lado da porta, garras rasgavam a madeira em golpes repetidos e cada impacto fazia o chão vibrar sob meus pés.
Voltei a encarar Elend no instante em que ele aumentou a pressão no meu ombro, terminando de enfaixá-lo. O ar fugiu dos meus pulmões. Um grito rasgou minha garganta e a vontade de socá-lo com o braço livre veio na mesma hora.
— Filho da puta! — gritei.
— Tô tentando te ajudar — respondeu ele, inclinando o rosto até quase roçar minha bochecha — Ou será que você não precisa, já que é imortal, Lady Zara?
Apertei o pulso dele com ainda mais força. Empurrei o ombro contra a mão que pressionava o corte e senti o sangue voltar a escorrer.
— Eu sangro como qualquer criatura deste mundo, Elend — respondi, ofegante — Se eu perder todo o meu sangue… entro num estado próximo da morte.
— Ser capaz de sobreviver ao inferno no castelo do Senhor das Sombras para virar churrasquinho de lobisomem… — uma voz feminina, leve e debochada, desceu do alto — Que fim trágico, Zara.
Levantei a cabeça e encontrei Syllee com seus quinze centímetros de ironia, acomodada com as pernas cruzadas na estrutura do relógio como se aquilo fosse entretenimento.
— Syl… — o ar saiu pelo meu nariz como um bufar — Tenta não piorar as coisas com seu sarcasmo...
— Sarcasmo? — ela desceu alguns centímetros, as asas batendo de leve — Eu só tô apontando um padrão. Você sempre esquece de pensar quando vê um rosto jovem e bonito pedindo ajuda, sua… papa-anjo.
— Quem enfiou a gente nesse ninho de pulgas foi você — retruquei, voltando a cerrar os dentes.
A pressão no ombro começou a surtir efeito e o sangue que escorria livre diminuiu até virar um fio lento, enquanto a dor se concentrava num único ponto que eu conseguia suportar.
— Acho que isso basta — comentou Elend — Mas, para a maga mais poderosa do mundo, eu esperava mais.
— Você realmente acredita em algo que um bardo fala? — perguntei, fazendo uma careta — Quase tudo que você ouviu sobre mim, se veio das histórias que eles cantam… provavelmente, é mentira.
O cenho dele se contraiu e reconheci o choque de quem vê um mito infantil ruir. As garras voltaram a rasgar a porta com força suficiente para quase arrancar as dobradiças. Ficamos nos encarando por um instante antes de eu quebrar o contato.
— Então acho que é assim que nossa breve parceria termina — disse Elend, com a mão firme na minha cintura — O que devo colocar na sua lápide?
Inclinei levemente a cabeça. O calor e a pressão sob a mão dele aumentou e a minha respiração prendeu no peito.
— Por que só eu vou morrer? — voltei a encará-lo.
Ele soltou uma risadinha e eu respondi com um bufar.
— Se você sair vivo, avisa que eu volto para assombrar cada um que me irritou nos últimos dias, inclusive você — continuei.
Elend sorriu de lado, mas não me soltou em nenhum momento. Quando parte das chamas avançou na nossa direção, ele inclinou ainda mais o corpo sobre mim, colocando-se entre as chamas e eu.
Ao mesmo tempo, levei a mão ao centro do peito e pressionei o esterno até que o ritmo da respiração obedecesse.
O ar entrou áspero, carregado de fumaça e partículas soltas de mana. Naquele estado, me perguntei qual decisão, tomada ao longo dos séculos, me arrastou da posição de companheira do chamado Herói Celestial para uma torre em chamas.
Alaric cruzou minha mente e eu quase ri, porque, se ele estivesse ali, a impulsividade dele já teria garantido que a situação piorasse.
— Vai continuar no seu mundinho ou vai fazer algo útil? — provocou Syllee, cortando o meu raciocínio — Essa porta não vai aguentar muito mais, Zara.