Marcação Encontrada Deseja continuar de onde parou?

CAPÍTULO 1 — A BRUXA DO RÉQUIEM

POV: Zara

Quarenta e oito horas antes...

Syllee pairava diante de mim, os cabelos ruivos, do mesmo tom que os meus, espalhados no ar como [Conteúdo protegido por direitos autorais] chamas suspensas. Torcia o nariz, enquanto examinava a si mesma, sem fazer esforço algum para esconder o incômodo.

— Por que você aceitou caçar um chupacabra? — perguntou [Conteúdo protegido por direitos autorais] ela, indignada — Agora nós duas estamos fedendo a bode molhado.

Deixei escapar um meio sorriso e voltei a atenção para a janela do bar. Lá fora, a multidão ocupava cada espaço, dançando [Conteúdo protegido por direitos autorais] atrás dos bardos que tocavam instrumentos de sopro e cantavam sobre a deusa Aurora que enfrentou os irmãos primordiais há sete mil anos.

— Porque você pediu aquela quantidade absurda de comida e o cliente prometeu pagar [Conteúdo protegido por direitos autorais] as despesas se aceitássemos caçar aquele chupacabra — respondi, puxando o copo de hidromel.

— Culpa sua, então — Syllee resmungou e foi até a janela, mantendo o [Conteúdo protegido por direitos autorais] nariz apoiado no braço — Você é quem deixa eu pedir tudo que quero.

Translúcida como vapor quando queria e sólida o bastante para ocupar espaço quando precisava, Syllee inclinou-se sobre o vidro. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Os olhos verdes iguais aos meus, voltados para fora, talvez, cogitando abandonar o próprio cheiro do lado de cá.

Antes de beber, acrescentei:

— Pelo menos você conseguiu [Conteúdo protegido por direitos autorais] uma boa reserva de mana.

Observei-a com mais atenção. Ela estava maior do que dias atrás, mãos e rosto agora bem definidos, embora as [Conteúdo protegido por direitos autorais] extremidades ainda se desfizessem em névoa. Syllee vestia o mesmo vestido preto simples, de corte juvenil, caindo até as canelas.

Não me lembrava de tê-la visto com outra roupa em séculos e duvidava que ela própria se lembrasse [Conteúdo protegido por direitos autorais] também. Em um instante, já estava ao meu lado outra vez, rápida e inconveniente como um pensamento intrusivo.

— Por que você ainda bebe isso? — Syllee fez uma careta para a [Conteúdo protegido por direitos autorais] caneca — Agora eu tô com esse gosto amargo na boca por causa desse lixo.

Inclinei a cabeça, sem pressa, deixando o [Conteúdo protegido por direitos autorais] silêncio pesar só o bastante para irritá-la.

Aproveitei para baixar os olhos para minha camisa cropped de gola alta que estava amassada depois da noite [Conteúdo protegido por direitos autorais] inteira na rua. Não tinha muito a comentar sobre usar o mesmo tipo de roupa há quase cem anos.

— Então aproveite o gosto em silêncio [Conteúdo protegido por direitos autorais] — eu disse tentando desamassar a roupa.

Syllee estalou a língua. Os fios de cabelo ondularam ao redor do rosto moreno e angular [Conteúdo protegido por direitos autorais] antes de se desfazerem, as cores do corpo pulsando entre moreno e azul-turquesa, conforme a irritação crescia.

— Quanto estão cobrando por um bom banho por aqui? — resmungou ela, cruzando os [Conteúdo protegido por direitos autorais] braços — Não importa, vai logo tomar um banho decente para eu me sentir limpa também.

Passei a mão pelos meus cachos vermelhos, que já estavam fora de lugar e desalinhado como sempre ficavam depois de uma noite caçando monstro, e olhei para minha saia [Conteúdo protegido por direitos autorais] verde presa pelos cintos carregados de frascos. A meia-calça preta rasgada e a lama seca nas solas das botas confirmavam que ela tinha razão, embora eu não fosse admitir isso.

— Uma pequena moeda.

— Uma pequena moeda de prata? — Syllee rodopiou na minha [Conteúdo protegido por direitos autorais] frente, ficando quase vermelha — Isso dá quinze pães! Que roubo!

Desviei o olhar da janela e sustentei o dela, sem pressa. Quando alguém me [Conteúdo protegido por direitos autorais] encarava assim, de perto, quase sempre os olhos verdes é que chamavam atenção primeiro.

Já ouvi mais de uma vez que eram a única parte de mim que não [Conteúdo protegido por direitos autorais] pareciam assustar as pessoas. No resto, eu era exatamente o que aparentava ser. Uma elfa.

— Então você vai cheirar a bode molhado por mais uma noite [Conteúdo protegido por direitos autorais] — respondi, rindo — Agora, desde quando você se importa tanto com banho?

— A culpa é sua, [Conteúdo protegido por direitos autorais] você que me fez assim, Zara!

A névoa que a compunha se ajustava ao contorno do corpo, [Conteúdo protegido por direitos autorais] o azul metálico da mana pulsando mais forte a cada segundo.

— Eu sei, eu sei — disse eu — Por isso [Conteúdo protegido por direitos autorais] você é linda, mas tem um poço sem fundo de impaciência.

Syllee estalou a língua, girou no ar duas vezes e pousou no encosto da [Conteúdo protegido por direitos autorais] cadeira à minha frente, cruzando as pernas como se estivesse prestes a presidir um julgamento.

Enrolei uma mecha do cabelo no dedo, enquanto deixava o olhar [Conteúdo protegido por direitos autorais] percorrer o bar, depois empurrei outra para trás da minha orelha pontuda.

As lâmpadas de cristal de mana espalhavam uma luz azul sobre as mesas, fazendo o suor brilhar [Conteúdo protegido por direitos autorais] na pele dos clientes que riam alto, gritavam e batiam palmas para os bardos do lado de fora.

Alguns bêbados tombavam no chão e ficavam largados [Conteúdo protegido por direitos autorais] até que os amigos resolvessem arrastá-los pela rua.

— Por que você tá perdendo tempo observando esse festival? [Conteúdo protegido por direitos autorais] — perguntou Syllee — Não é igual em qualquer lugar?

Porque me faz lembrar dele.

Deixei o pensamento onde estava e, em vez de responder, acompanhei os bonecos gigantes que passavam acima da [Conteúdo protegido por direitos autorais] multidão. Os corpos desproporcionais e as cabeças enormes balançavam, ao passo que eram conduzidos pela multidão na rua.

— Ah, então é hoje? — Syllee ergueu o queixo, [Conteúdo protegido por direitos autorais] me encarando por cima do ombro — Faz quanto tempo?

Tentei fazer a conta de cabeça, conforme, levava o [Conteúdo protegido por direitos autorais] hidromel à boca devagar e deixava o amargo se espalhar.

— Vinte anos… — Fiz [Conteúdo protegido por direitos autorais] uma careta — Talvez, quarenta?

Syllee soltou um [Conteúdo protegido por direitos autorais] suspiro curto, impaciente.

— Ou foram vinte ou foram quarenta, Zara. Não é uma diferença pequena para você [Conteúdo protegido por direitos autorais] se confundir. Ainda não aprendeu que quarenta anos é uma vida inteira para um humano?

Dei de ombros [Conteúdo protegido por direitos autorais] e tomei outro gole.

— Nunca fui boa em medir o tempo, assim [Conteúdo protegido por direitos autorais] como você é um desastre administrando o nosso dinheiro.

Syllee puxou o ar com [Conteúdo protegido por direitos autorais] força, parecendo ofendida na medida certa.

— Desastre? — Ela estreitou os olhos — Você só não quer [Conteúdo protegido por direitos autorais] admitir que os seus trabalhos não pagam nem as nossas despesas básicas.

Ergui o rosto da caneca, segurei a resposta mais ácida, [Conteúdo protegido por direitos autorais] porque dar o que ela queria não ia melhorar meu humor.

— Despesa básica é uma noite numa pousada decente, uma cama limpa, três refeições e, com sorte, um lanche — coloquei [Conteúdo protegido por direitos autorais] a caneca na mesa — Não inclui devorar três quilos de carne de bode no mesmo dia em que caçamos um chupacabra.

Syllee deu de ombros.

— Gosto de me manter bem alimentada. Diferente de [Conteúdo protegido por direitos autorais] você que vive de teimosia e dessa bebida horrível.

Inclinei a cabeça e avaliei aquele [Conteúdo protegido por direitos autorais] corpo leve demais para tanta insolência.

— Syl, você tem quinze centímetros e não pesa nem [Conteúdo protegido por direitos autorais] quinhentos gramas. Pra onde vai tudo isso que você come?

Syllee deu de ombros de novo [Conteúdo protegido por direitos autorais] e ficamos alguns minutos em silêncio.

— Você ainda se sente culpada pelo [Conteúdo protegido por direitos autorais] que aconteceu no norte? — ela perguntou.

— Você sabe a [Conteúdo protegido por direitos autorais] resposta... Por que ainda pergunta?

Syllee cruzou os braços, ficando alguns [Conteúdo protegido por direitos autorais] centímetros acima do encosto da cadeira.

— Porque você ativou o seu bloqueio mental — Syllee suspirou — E porque, às [Conteúdo protegido por direitos autorais] vezes, é bom botar pra fora, em vez de deixar apodrecer dentro da sua cabeça imortal.

Soltei um riso [Conteúdo protegido por direitos autorais] curto pelo nariz.

— Desde quando você [Conteúdo protegido por direitos autorais] fala como o Hakan?

— Só quando eu percebo que você tá remoendo o passado — respondeu Syllee, bufando — Sem contar que durante [Conteúdo protegido por direitos autorais] nossa última jornada para o norte, aprendi uma ou duas coisas com ele… O Alaric gostava dos sermões do Hakan.

Levei o copo aos lábios, mas não bebi. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Só precisava de algo para ocupar as mãos.

— Onde você acha que [Conteúdo protegido por direitos autorais] o Alaric está? Em Valorae?

— Não sei se ele foi para esse tal “descanso” das almas…— disse Syllee, baixando um pouco a cabeça [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Mas, onde quer que esteja, é melhor do que aqui. Pelo menos não deve tá cheirando a bode molhado.

Dessa vez, a risada escapou antes que eu [Conteúdo protegido por direitos autorais] a contivesse e Syllee sorriu de volta, satisfeita.

— Syllee, você acha que alguém [Conteúdo protegido por direitos autorais] lembra do que de fato aconteceu?

Syllee inclinou a cabeça, pensativa.

— Não sei... a memória dos humanos é curta. Devem lembrar que vocês perderam a batalha, mas devem ter esquecido que foi por causa de vocês que o continente venceu a [Conteúdo protegido por direitos autorais] guerra — disse Syllee, unindo as sobrancelhas antes de levantar a cabeça — Enfim, esse festival só existe por causa de vocês e, em resumo, é só isso que devem lembrar.

Passei o dedo na borda da caneca. O bar enchia, à medida que a noite avançava e [Conteúdo protegido por direitos autorais] a todo minuto, gente deixava o festival e trazia cheiro de tabaco, suor e euforia para dentro.

— Esses festivais não existiam antes — desviei os olhos da porta [Conteúdo protegido por direitos autorais] para ela — Provavelmente, nem sabem por que comemoram nessa época do ano.

Syllee soltou o [Conteúdo protegido por direitos autorais] ar num quase riso.

— Será que eles se ofenderiam se descobrissem que isso [Conteúdo protegido por direitos autorais] começou como uma tentativa do Alaric de te pedir em casamento?

Ri e assenti. Ela piscou duas vezes, inspirou fundo e [Conteúdo protegido por direitos autorais] ergueu o queixo, os olhos presos em algo atrás de mim.

— Tem um idiota [Conteúdo protegido por direitos autorais] se aproximando — cantarolou Syllee.

Virei o suficiente para olhar por cima do ombro e reconheci o [Conteúdo protegido por direitos autorais] homem. Estava bem mais velho agora, mas continuava o mesmo bêbado brigão.

Ele abriu caminho entre as mesas com a mesma confiança torta de sempre. O gibão de couro [Conteúdo protegido por direitos autorais] carregava manchas antigas de gordura e o jeito de andar denunciava um histórico longo de quedas mal resolvidas.

O olhar dele vinha em linha reta, grudado em mim. A boca se abriu, fechou e, no momento [Conteúdo protegido por direitos autorais] em que tentou desviar de uma cadeira mal colocada, perdeu o apoio, tropeçou e o corpo veio à frente.

A mão bateu na minha caneca, espalhando o [Conteúdo protegido por direitos autorais] hidromel pela mesa e ele terminou no chão.

Acompanhei o caminho do líquido antes de baixar o olhar para o rosto inchado de álcool e irritação do idiota. O cabelo castanho caía pesado [Conteúdo protegido por direitos autorais] sobre a testa, a barba espessa escondia metade do rosto. Tirando o tamanho e o excesso de pelos, ele continuava igual ao moleque de anos atrás.

Ele tentou se levantar, falhou no meio do caminho e desistiu. [Conteúdo protegido por direitos autorais] O olhar subiu até mim, encontrou os meus e ficou ali.

— Porque você tá aqui na minha cidade de novo, [Conteúdo protegido por direitos autorais] sua vagabunda medros! — rosnou o bêbado, ainda caído no chão.

O sangue subiu rápido pelo meu rosto. Inspirei devagar, segurando a resposta onde devia ficar, porque dar o que ele queria significava [Conteúdo protegido por direitos autorais] transformar aquilo numa desculpa para passar a noite numa cela. Procurei Syllee com os olhos, mas ela já pairava acima de mim.

— Ele é o mesmo daquela época? — [Conteúdo protegido por direitos autorais] perguntei — Quando foi a última vez mesmo?

— Infelizmente, é ele sim — Syllee cruzou as pernas no ar como se [Conteúdo protegido por direitos autorais] estivesse sentada numa cadeira invisível — Uns vinte anos? Ou será que foram quarenta?

Revirei os olhos ao perceber que ela me devolveu a mesma resposta e voltei a encarar o homem. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Ele soltou um som preso entre soluço e arroto, tentou se erguer com o resto de dignidade que encontrou.

— Sua maga velha! — gritou, cambaleando [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Com que fantasma você tá falando?

Sorri de lado e soltei [Conteúdo protegido por direitos autorais] o ar pelo nariz, devagar.

— Uma criança como você não aprendeu que bebida é para adultos? — [Conteúdo protegido por direitos autorais] continuei sentada — Ou será que a lição nunca entrou na sua cabeça?

Ele apontou um dedo encardido na minha [Conteúdo protegido por direitos autorais] direção, à medida que o braço oscilava.

— Sempre que você vem aqui, traz azar, sua bruxa! — o bêbado soluçou — [Conteúdo protegido por direitos autorais] Vá embora logo, ou eu a levo ao prefeito e exijo um julgamento por combate.

Inclinei a cabeça e dei a ele [Conteúdo protegido por direitos autorais] toda a atenção que aquela ameaça merecia.

— Você acha [Conteúdo protegido por direitos autorais] que consegue me derrotar?

Ele riu, mas o [Conteúdo protegido por direitos autorais] som morreu na garganta.

— Como eu perderia pra uma maga que fugiu com o rabo [Conteúdo protegido por direitos autorais] entre as pernas do extremo norte? — o dedo balançou outra vez.

Aquilo explicou mais do que ele pretendia, provavelmente. Talvez, tivesse perdido alguém no norte ou quem sabe ainda tivesse algum familiar pagando [Conteúdo protegido por direitos autorais] por decisões que tomei décadas atrás, na mesma época em que começaram a me chamar de bruxa que matou o herói celestial.

Me levantei sem pressa, dando a ele tempo para recuar, caso tivesse algum juízo. Já de [Conteúdo protegido por direitos autorais] pé, ergui o queixo e sustentei o olhar até que ele fosse obrigado a encarar o meu.

— Então você quer me desafiar em combate pra julgar o que fiz no norte? — perguntei [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Tem um motivo pessoal ou é só um idiota mesmo? Porque, se tiver, talvez, eu considere aceitar.

Ele abriu a boca, mas algo no meu rosto o fez hesitar. A bebida dá coragem, eu sei, mas existe uma diferença [Conteúdo protegido por direitos autorais] clara entre bravata de taberna e morte de verdade, e reconheço quando alguém também percebe isso. Mesmo assim, ele sustentou o olhar.

— Não há lugar aqui para tipos como você, sua vagabunda! — rosnou mais uma vez [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Aqui, em Abateueba, não precisamos de gente da sua laia. Esta é uma vila decente.

Não respondi ao discurso, simplesmente peguei a caneca que ainda tinha algum líquido dentro e me afastei um passo. De relance, observei o taberneiro. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Ele conhecia a minha reputação o bastante para não tentar me cobrar a mais, mas não o suficiente para intervir quando algum imbecil resolvia latir.

Quando os nossos olhares se cruzaram, o rosto do taberneiro perdeu a [Conteúdo protegido por direitos autorais] cor e pareceu surgir um interesse súbito em algo atrás do balcão.

Pelo canto do olho, vi a mão do bêbado subir na minha direção. Segurei os dedos dele antes que me tocassem, travei a [Conteúdo protegido por direitos autorais] articulação no ponto certo e apliquei pressão. O corpo grande cedeu, os joelhos dobraram e o queixo dele bateu no tampo da mesa.

A taberna mudou no mesmo instante. Cadeiras rasparam, alguém gritou algo que se perdeu no ruído e um [Conteúdo protegido por direitos autorais] freguês correu para a porta. O taberneiro me encarava agora com medo e alívio, uma combinação honesta, devo admitir.

Mantive o dedo do bêbado preso e torci o braço o suficiente para forçá-lo a se erguer [Conteúdo protegido por direitos autorais] da mesa. Quando ele conseguiu ficar de pé, soltei. Ele recuou, a mão pressionada contra o peito.

— Quando a bebedeira passar, acenda uma vela para a deusa Aurora em agradecimento por eu [Conteúdo protegido por direitos autorais] estar de bom humor — puxei a cadeira e me sentei de frente para a janela.

O bêbado continuou recuando sem olhar para trás, tropeçou no próprio pé, mas dessa [Conteúdo protegido por direitos autorais] vez conseguiu se equilibrar. Ninguém tentou segurá-lo, apenas abriram espaço para que fosse embora.

O silêncio que ficou era denso, mas não desagradável. Arrumei a [Conteúdo protegido por direitos autorais] mesa e, nesse intervalo, Syllee surgiu diante do meu rosto, flutuando.

— Você devia tê-lo transformado num porco, teria sido bem mais divertido… — [Conteúdo protegido por direitos autorais] disse Syllee franzindo o cenho — Além disso, a sua magia tá acumulando pó.

— Não tá acumulando pó — respondi rápido, sem encará-la — [Conteúdo protegido por direitos autorais] E não preciso transformar bêbados em porcos só pra te entreter.

Syllee deslizou para o meu lado com [Conteúdo protegido por direitos autorais] as mãos na cintura, soltando um suspiro.

— Quando foi a última vez que você usou magia? E não vale [Conteúdo protegido por direitos autorais] esse bloqueio mental irritante que você ativa toda vez que não quer falar comigo.

Levei a caneca aos lábios e terminei [Conteúdo protegido por direitos autorais] o que restava do hidromel antes de responder:

— Não ia transformá-lo [Conteúdo protegido por direitos autorais] só porque ele falou besteira.

Syllee analisou o meu rosto como se [Conteúdo protegido por direitos autorais] procurasse fissuras e depois deu de ombros.

— E por que não? — murmurou Syllee [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Os outros porcos iam reclamar da concorrência?

Já abria a boca para devolver uma resposta à altura quando um arrepio subiu pela minha nuca. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Não precisei de explicação. Virei o suficiente para confirmar o que o meu corpo já tinha entendido.

A capa vermelha chamou minha atenção primeiro, seguida pelo corte militar dos cabelos loiros. Levantei antes de ver o [Conteúdo protegido por direitos autorais] resto, mas bastou uma olhada para perceber que o rosto era bonito, se você considera um rosto padrão bonito.

O maxilar era marcado, a barba loira por fazer, aparada o bastante para parecer uma escolha. Os olhos azuis [Conteúdo protegido por direitos autorais] contrastavam com os meus verdes e a forma como me observava deixava claro que ele sabia quem eu era.

— Se você veio me prender, eu não tive culpa — [Conteúdo protegido por direitos autorais] falei, sustentando o olhar dele — O homem me atacou sem motivo.

Syllee assobiou ao meu lado, nada discreta, e começou a [Conteúdo protegido por direitos autorais] rodeá-lo no ar com interesse demais para o meu gosto.

— Ele é bonitão — murmurou Syllee, girando devagar [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Quem sabe ser presa não seja um bom negócio…

Revirei os olhos antes de encarar o dono da capa vermelha de novo. A armadura de couro cobria o torso e os ombros, flexível o bastante para [Conteúdo protegido por direitos autorais] não prender os movimentos. Fiz uma anotação mental sobre aquilo, esse homem preferia mobilidade à proteção pesada. Isso exige confiança, sobretudo para alguém que carrega autoridade nas ruas.

— A senhora é Lady [Conteúdo protegido por direitos autorais] Zara? — perguntou o desconhecido.

A voz era grave, segura do próprio peso. Cruzei os braços e o medi da cabeça aos pés, do mesmo jeito que [Conteúdo protegido por direitos autorais] ele fazia comigo, prestando atenção à postura, ao ritmo da respiração e às mãos livres. Uma delas pousada no pomo da espada.

— Depende — respondi com um sorriso enviesado — Se for mais um chefe da guarda a serviço [Conteúdo protegido por direitos autorais] de um nobre desesperado com a filha sumida atrás da minha ajuda, então não. Hoje sou só uma faxineira.

Ele soltou um riso [Conteúdo protegido por direitos autorais] curto e ajustou os ombros.

— É um prazer conhecê-la, Lady Zara — disse o [Conteúdo protegido por direitos autorais] desconhecido, inclinando a cabeça — O meu nome é Elend.

Sustentando o meu olhar sem vacilar, a expressão dele não se desviou, nem tentou me medir pelas beiradas. Poucos homens se mantêm [Conteúdo protegido por direitos autorais] firmes quando percebem que estão sendo avaliados de volta. Inclinei levemente a cabeça, o bastante para deixar claro que eu tinha notado.

— Muito bem, senhor Elend… — deixei a caneca na mesa — Vai continuar me estudando como mercadoria ou pretende falar [Conteúdo protegido por direitos autorais] o que quer? Está aqui para me contratar ou precisa de uma poção para amolecer o coração de uma amada ingrata?

Elend riu outra vez.

— Ainda estou decidindo se devo contratá-la ou prendê-la. Talvez, também considere [Conteúdo protegido por direitos autorais] convidá-la para um… encontro em algum castelo escuro e perigoso — respondeu Elend.

O canto da minha boca quase cedeu, mas consegui controlar a surpresa. Humor ajuda, apesar [Conteúdo protegido por direitos autorais] de não me impressionar tanto. Ainda assim, ele subiu alguns pontos na minha lista mental.

No ar, Syllee girou como se o espaço [Conteúdo protegido por direitos autorais] fosse um palco e me lançou um sorriso malicioso.

— Essa tensão entre vocês tá… instigante — disse ela, se abanando com a mão [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Talvez, você devesse dar uma chance e ouvir o que ele tem a dizer.

Acompanhei o movimento dela com os olhos e ergui uma sobrancelha. Syllee raramente se empolgava com estranhos, se [Conteúdo protegido por direitos autorais] estava curiosa, havia algo ali que eu ainda não tinha percebido. Voltei a encarar Elend com menos barreiras erguidas.

— Então essa é a Lady Syllee? — Elend perguntou, os olhos [Conteúdo protegido por direitos autorais] se movendo pelo ar numa tentativa clara de seguir o trajeto dela.

— Você consegue vê-la?

— Não completamente — Elend fixou os olhos [Conteúdo protegido por direitos autorais] em mim outra vez — Mas consigo ouvi-la.

— Syl, não seja rude — [Conteúdo protegido por direitos autorais] falei — Apareça para o senhor Elend.

Ela surgiu num redemoinho diante do rosto dele e executou uma reverência calculada para provocar. Elend [Conteúdo protegido por direitos autorais] deu um passo atrás. A reação sincera me agradou mais do que uma pose de firmeza.

— É um prazer conhecê-lo, senhor Elend — declarou Syllee, [Conteúdo protegido por direitos autorais] com doçura — Prometo que sou a parte equilibrada da dupla.

— Isso explica muita coisa [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Elend respondeu, repetindo a reverência.

Cruzei os braços e indiquei a cadeira [Conteúdo protegido por direitos autorais] à minha frente com um gesto do queixo.

— Se consegue percebê-la, então tem afinidade com [Conteúdo protegido por direitos autorais] mana — disse eu — Sente-se, senhor Elend.

— Obrigado, Milady — Elend puxou a cadeira — [Conteúdo protegido por direitos autorais] E sim, consigo usar mana para reforçar o corpo.

Toquei a glabela e fechei os olhos por um [Conteúdo protegido por direitos autorais] instante. Poucos ainda dominavam aquilo naquela época, além dos magos.

— Se não se [Conteúdo protegido por direitos autorais] importa, onde aprendeu essa técnica?

— Com o velho [Conteúdo protegido por direitos autorais] Alaric — respondeu Elend.

Abri a boca e a fechei logo depois. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Novamente, a surpresa escapou antes que eu pudesse conter.

— Você… foi discípulo dele? Você parece muito novo [Conteúdo protegido por direitos autorais] para tê-lo tido como mestre. Por acaso, é um meio-elfo?

Ele assentiu. Enquanto eu endireitava as costas, [Conteúdo protegido por direitos autorais] o observei outra vez, agora sob outra perspectiva.

— Então diga, como posso ajudar o discípulo do meu velho amigo? — perguntei — Duvido que tenha [Conteúdo protegido por direitos autorais] vindo até aqui só para confirmar como fiz o herói celestial escapar do castelo do Senhor das Sombras.

Dessa vez, Elend não sorriu, [Conteúdo protegido por direitos autorais] na verdade, uniu as sobrancelhas.

— Na realidade, queria saber [Conteúdo protegido por direitos autorais] se a senhora está disponível.

Cruzei as pernas devagar, sustentando o olhar [Conteúdo protegido por direitos autorais] e deixei o silêncio se estender um pouco.

— Depende — falei, com um sorriso de lado — No momento, não tem [Conteúdo protegido por direitos autorais] ninguém esquentando minha cama e estou de folga, então, talvez, eu esteja disponível sim.

O silêncio que veio depois foi curto, mas disse tudo. Percebi no rosto de Elend o ajuste quase invisível, [Conteúdo protegido por direitos autorais] aquela fração de segundo em que entendeu algo diferente do que eu quis dizer e precisou recalcular a rota.

— É uma oferta tentadora — disse Elend, o canto da boca traindo um sorriso — Poderia aceitar de tantas formas, mas [Conteúdo protegido por direitos autorais] as melhores coisas merecem atenção devida e a senhora merece mais do que a minha atenção dividida. Por ora, me refiro a trabalho.

Inclinei a cabeça, como se lamentasse de verdade a [Conteúdo protegido por direitos autorais] confusão e mantive a minha vantagem por mais um instante.

— Que pena — eu disse suspirando e fazendo um biquinho — Já estava considerando a proposta. Faz tempo que [Conteúdo protegido por direitos autorais] a minha cama está vazia. Se bem me lembro… a última vez foi quando o seu mestre passou por ela.

Syllee soltou uma gargalhada ao meu lado e [Conteúdo protegido por direitos autorais] Elend pigarreou antes de dar um sorriso contido.

Apoiei o cotovelo na mesa e deixei o queixo descansar na mão. Havia controle em cada gesto dele, um [Conteúdo protegido por direitos autorais] esforço claro para sustentar neutralidade, mas a tensão aparecia nos detalhes, principalmente, nos olhos se revezando entre mim e Syllee.

— Muito bem, senhor Elend — falei — Que tipo de [Conteúdo protegido por direitos autorais] missão traz um membro da guarda imperial a este fim de mundo?

Elend franziu o cenho.

— É verdade que a [Conteúdo protegido por direitos autorais] senhora consegue matar um lobisomem?

Ergui a caneca e pedi outra antes de responder. Por um instante, lembrei de Alaric. Cento e vinte e [Conteúdo protegido por direitos autorais] cinco anos haviam passado desde a primeira missão ao lado dele, quando também me chamou para caçar um lobisomem.

— Estamos falando de um jovem? [Conteúdo protegido por direitos autorais] — perguntei, pousando a caneca na mesa.

— Não sei dizer — respondeu Elend — Nem tenho certeza de que é um lobisomem, mas [Conteúdo protegido por direitos autorais] houve uma solicitação na guilda dos aventureiros. Um grupo foi enviado e não tivemos resposta desde então.

Assenti, ligando os pontos.

— Então, a guilda [Conteúdo protegido por direitos autorais] chamou a guarda imperial?

— Não de imediato — disse Elend — Primeiro, convocaram um [Conteúdo protegido por direitos autorais] dos bruxos e só depois disso, a solicitação veio para a guarda.

Inclinei um pouco mais a [Conteúdo protegido por direitos autorais] cabeça e mantive os olhos nele.

— E o bruxo?

— Ninguém o viu [Conteúdo protegido por direitos autorais] chegar e nem sair.

Passei o dedo pela borda da caneca e organizei as peças na mente. Nada ali [Conteúdo protegido por direitos autorais] me surpreendia. Ao meu lado, Syllee pairava em silêncio, o que, nela, já era resposta suficiente.

— Quantos aventureiros?

— Cinco ou seis.

Soltei o ar pelo nariz.

— E um bruxo desaparecido… — disse eu — Tenho certeza que [Conteúdo protegido por direitos autorais] é um lobisomem adulto. Provavelmente, fêmea e perto de dar à luz.

— O que te faz pensar [Conteúdo protegido por direitos autorais] isso? — Elend franziu o cenho.

— Lobisomens fêmeas só se fixam em território e caçam nesse ritmo quando estão prenhas. Precisam alimentar a cria que vem. Se ficou, é [Conteúdo protegido por direitos autorais] porque tem motivo para lutar. Uma lobisomem jovem teria simplesmente fugido e buscado uma área menos disputada. Provavelmente, ela está lá com um alpha.

Elend piscou algumas [Conteúdo protegido por direitos autorais] vezes, até que assentiu.

— Então não é apenas uma fera [Conteúdo protegido por direitos autorais] mágica que chegou a uma região remota?

Neguei com a cabeça.

— Não... ela já deve estar lá há meses. Só procurou [Conteúdo protegido por direitos autorais] um ponto mais protegido quando o parto começou a se aproximar.

O peso leve de Syllee pousou no meu ombro. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Ela apoiou a mão no próprio queixo e encarou Elend.

— Posso perguntar uma [Conteúdo protegido por direitos autorais] coisa? — disse Syllee.

— O que [Conteúdo protegido por direitos autorais] foi, Lady Syllee?

Ela inclinou a cabeça.

— O seu mestre contou como nos conheceu? Quero dizer… [Conteúdo protegido por direitos autorais] o que estava acontecendo naquela cidade quando ele nos contratou?

Elend levou um segundo, parecendo [Conteúdo protegido por direitos autorais] organizar a memória e então assentiu.

— Ele disse que foi durante uma caçada. Um lugar [Conteúdo protegido por direitos autorais] tomado por lobisomens, a cidade inteira sob o domínio deles.

Syllee confirmou com um movimento lento de cabeça e me lançou um olhar de lado. A lembrança [Conteúdo protegido por direitos autorais] veio sem convite. Balancei a cabeça de leve, afastando aquela memória e voltei a atenção para Elend.

— Quantos vivem [Conteúdo protegido por direitos autorais] nesse lugar? — perguntei.

— Talvez, mil ou duas mil. [Conteúdo protegido por direitos autorais] O último censo foi feito há anos.

Syllee soltou um suspiro [Conteúdo protegido por direitos autorais] curto ao meu lado.

— Zara, precisamos aceitar.

— Eu sei.

— Então, por que ainda resiste? — murmurou Syllee — Você sabe [Conteúdo protegido por direitos autorais] o que acontece quando o instinto de um lobisomem se mistura com desespero.

Elend se ajeitou na cadeira, como se tivesse [Conteúdo protegido por direitos autorais] perdido um trecho essencial da conversa e me encarou.

— Do que [Conteúdo protegido por direitos autorais] Lady Syllee está falando?

Voltei os olhos para ele.

— Quando uma lobisomem dá à luz, a licantropia pode se tornar transmissível. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Sangue, saliva, até um arranhão basta. A maldição se espalha como uma praga.

Elend fez uma careta.

— Então podemos [Conteúdo protegido por direitos autorais] ter uma epidemia?

— Podemos — respondi — Em poucas semanas, a região inteira pode [Conteúdo protegido por direitos autorais] ser tomada. Gente comum transformada em bestas incapazes de conter o próprio instinto.

— Diante desse cenário, a senhora [Conteúdo protegido por direitos autorais] pode nos ajudar? — perguntou Elend.

Soltei o ar e o incômodo voltou com o mesmo peso. Uma capa vermelha nesta parte do império não fazia sentido. Missões assim costumavam ir [Conteúdo protegido por direitos autorais] para as capas douradas, o que me dizia que havia mais ali do que um pedido de socorro. Além disso, algo nele não se encaixava.

Ou Elend foi enviado por um motivo [Conteúdo protegido por direitos autorais] específico ou escolheu omitir partes convenientes da história.

— Não sou mais heroína, senhor Elend, e o último imperador que auxiliei está morto há décadas [Conteúdo protegido por direitos autorais] — falei, apontando para a bolsa de couro vazia sobre a mesa — Mas… de quanto estamos falando?

— Vinte moedas de ouro e três barris de vinho — [Conteúdo protegido por direitos autorais] respondeu Elend — A região é conhecida pelos melhores do continente.

Ergui o olhar com mais [Conteúdo protegido por direitos autorais] interesse do que pretendia mostrar.

— Então é em Oakhaven?

Elend assentiu.

— Aceitamos! — disse Syllee [Conteúdo protegido por direitos autorais] antes que eu abrisse a boca.

Soltei o ar pelo nariz e deixei os pensamentos se [Conteúdo protegido por direitos autorais] atropelarem. Vinho. Oakhaven. Alaric. Coisas que preferia manter enterradas naquele solo.

— Tem certeza? — perguntei a Syllee — [Conteúdo protegido por direitos autorais] Depois não reclame do cheiro de cachorro molhado.

— Com vinte moedas de ouro, eu tomo banho todos os dias por anos e ainda compro perfume para [Conteúdo protegido por direitos autorais] você — disse Syllee, rindo — Além disso, você já ia aceitar assim que ouviu o nome da cidade.

Estreitei os olhos para ela [Conteúdo protegido por direitos autorais] e então voltei a Elend.

— Bem, isso é verdade — disse eu — [Conteúdo protegido por direitos autorais] Só espero que não recue no pagamento, senhor Elend.

— A coroa pagará pelos seus [Conteúdo protegido por direitos autorais] serviços, milady. Mas… posso perguntar algo?

Assenti com um gesto curto.

— Por que o nome da [Conteúdo protegido por direitos autorais] cidade a fez mudar de ideia?

Cruzei os braços e deixei o silêncio se estender, medindo [Conteúdo protegido por direitos autorais] com cuidado o que podia expor e o que precisava manter.

— Naquela região, há duas [Conteúdo protegido por direitos autorais] coisas importantes — eu disse.

Syllee ergueu a mão como se [Conteúdo protegido por direitos autorais] pedisse licença, olhando de lado para mim.

— A primeira é a mais relevante — disse Syllee levantando-se e deslizando ao redor de Elend — Lá fica o [Conteúdo protegido por direitos autorais] vinho que Zara adora. Mas a segunda coisa é que fica perto do nosso verdadeiro motivo para vir ao nordeste do império.

Elend riu baixo e fez [Conteúdo protegido por direitos autorais] um gesto breve de concordância.

— Posso saber [Conteúdo protegido por direitos autorais] qual é esse objetivo?

Sustentei o olhar [Conteúdo protegido por direitos autorais] dele sem pressa.

— Por ora, vamos nos concentrar na missão — respondi — O resto é assunto particular, senhor Elend, e vai continuar assim até que você me dê um [Conteúdo protegido por direitos autorais] motivo para confiar em você. Não é porque foi discípulo do Herói Celestial e meu melhor amigo que vou colocar a minha vida nas mãos de um capa vermelha.

100%