A silhueta de Alice sumiu entre as casas. Fiquei ali encarando a janela da pousada por um tempo, esperando meio que ela reaparecesse, até que virei e fiz um sinal com a cabeça para Elend, indicando que me seguisse para sairmos dali.
Os lampiões agora acesos espalhavam uma aura esquisita pela cidade, a luz deles se misturando com a da lua de um jeito que fez os pelos da minha nuca se arrepiarem. Conforme avançávamos para o leste, notei a ausência do cheiro típico de resina que eu associava a Oakhaven.
Levantei uma sobrancelha, mas ignorei por enquanto. A cidade não era mais a mesma e nem seus moradores, então fazia sentido que o ar também tivesse mudado.
As janelas fechadas e a ausência de vozes confirmavam isso e a certeza só crescia, à medida que eu observava tudo ao meu redor: Alice escondia alguma coisa. Precisava de uma evidência antes de tratá-la como empecilho, era o mínimo que devia ao avô da garota.
A estrada durou uns quarenta minutos antes de virar trilha de terra. Jequitibás e imbuias fechavam os dois lados e eu desviava dos galhos baixos a cada poucos passos, à medida que a lua subia o bastante para projetar sombras compridas entre os troncos.
O que exatamente eu esperava encontrar? Não fazia ideia, mas preferia caminhar a ficar parada.
— Você já tem alguma ideia do que estamos procurando? — Elend perguntou — Por que exatamente estamos indo para a aldeia do leste?
— Não quero acreditar que os demônios voltaram para cá bem debaixo do meu nariz — desviei de outro galho, sentindo a aspereza da casca roçando meu ombro — Mas se voltaram, vou encontrar sinal de mana corrompida. Já senti um pouco disso na cidade, então preciso sair e ver se aquilo está apenas lá ou espalhado pela região. Se foi um lobisomem ou não… vou saber quando estiver no local.
Elend ficou em silêncio. Olhei por cima do ombro e o encontrei encarando minhas costas.
— Você já sabia disso, não é? — a pergunta saiu mais como constatação — Foi por isso que veio atrás de mim, enquanto o imperador foi para a Grande Floresta.
Elend não me respondeu, mas também não tentou negar e aquilo me fez soltar um riso.
Voltei a olhar para a trilha, a irritação subindo devagar até o ponto em que não consegui mais me manter calada. Ele realmente achou que eu não notaria?
— “Demônios do norte…” — repeti as palavras dele de forma irônica — Um jeito curioso de renomear os não-nascidos. Se eu tivesse que apostar, diria que você foi até mim pra sondar se minha barreira ao norte ainda está funcionando.
— Existe alguma possibilidade de não estar?
Olhei por cima do ombro e ele ergueu os olhos, encontrando os meus.
— Tá vendo, eu sabia… Algumas das barreiras e selos que usei ainda vão durar bastante tempo, pelo menos até os seus netos terem a sua idade — respondi com um meio-sorriso — Outras já estão perto de se romper, mas eu saberei quando isso acontecer.
Elend mordeu o lábio e o vento da clareira agitou o cabelo dele. Parei de repente, obrigando-o a parar também.
— Você está muito calado desde que saímos da taberna em Abateueba, senhor Elend — Apoiei o peso num pé só — Se queria manter seu segredo e evitar que eu desconfiasse, está fazendo um péssimo trabalho.
— Lady Zara... — Ele levantou os olhos, mas logo os baixou — Você acha que… os demônios podem estar fazendo incursões para libertar os generais que a senhora selou pelo continente?
Respirei fundo e ergui o olhar para a lua. Era exatamente o tipo de coisa que eles fariam.
— Então, quer dizer que vocês já sabem que eles desceram do norte de alguma forma?
Elend continuou encarando o chão. Suspirei e caminhei até um tronco próximo, recostando-me nele.
— Você não pode me dizer isso, eu sei... — Cruzei os braços — Mas Syl e eu já percebemos alguns sinais. Cada vez mais feras aparecem em várias regiões dos vinte e seis reinos, e nunca tive tanto trabalho, nem tanta gente querendo me contratar. Isso me fez perceber que as coisas estão ficando estranhas. Então, não se preocupe, você não vai perder a cabeça por me contar.
O silêncio dele já dizia o suficiente. Soltei um som pelo nariz, quase um riso.
— O que ainda não entendi é por que você não me diz o motivo de ter vindo — Meu olhar desceu até o cinto dele — Isso não parece uma missão que o imperador daria a uma capa vermelha, ainda mais a um que usa símbolo de gongo dourado.
Fazia tempo que eu não via um gongo dourado. Aquela pequena peça de metal me indicava que Elend ocupava a patente mais alta entre as capas vermelhas, o que significava que ele podia comandar um esquadrão inteiro e até dar ordens a alguns nobres abaixo dos marqueses.
Ainda assim estava ali, sozinho, me seguindo por uma trilha escura, sem nenhum soldado, o que tornava tudo mais curioso.
— Não fui enviado pelo imperador — Elend ergueu a cabeça — Estou cumprindo ordens dele, é claro, mas… não estou aqui porque ele me mandou.
Estreitei os olhos.
— Só existe uma outra pessoa que pode comandar os capas vermelhas e ela, definitivamente, não pediria que você viesse atrás de mim.
— Por que a senhora continua viajando? — A voz dele carregava uma tom de curiosidade — Muitas histórias inventam motivos e inverdades sobre o que aconteceu no norte, mas a grande maioria da população é grata pelo que a senhora fez. Então por que nunca aceitou fazer parte deste império? Por que prefere continuar como uma andarilha?
— Elend, você sabe qual é a diferença real entre um demônio e um humano?
Piscando, Elend claramente parecia surpreso e pego desprevenido pela mudança brusca de assunto.
— Os demônios não são exatamente bestas mágicas, porque ainda são seres sencientes e racionais — Elend deu de ombros — Mas também não se encaixam como humanos por motivos óbvios.
— Na verdade, a diferença não é tão grande quanto parece. Além da aparência bizarra que eles têm… — Descruzei os braços devagar, olhando para a lua — Os demônios evoluem rápido e, assim como os humanos, é impossível saber exatamente o que estão planejando. Mas, se quisermos encontrar uma distinção real, ela está no fato de que os humanos são medrosos, mesquinhos e irracionais, porque o amor é ao mesmo tempo sua maior força e sua maior perdição.
Fiz uma pausa antes de voltar o olhar para ele.
— Os demônios se alimentam apenas da ganância e da inveja. Eles não passam de uma casca fria que só busca sobreviver, dominar e destruir — Inclinei levemente a cabeça — Mas, pensando bem, isso não é tão diferente assim dos humanos, não acha? Quantos lordes e nobres você conhece que são exatamente assim?
— Isso é bem diferente do que Lady Aerin diz.
— Sim — Concordei com a cabeça — Para a minha irmã, os demônios devem ser eliminados a qualquer custo, mesmo que isso signifique… destruir metade do continente.
Deixei o silêncio pairar por um momento antes de voltar a encará-lo.
— Pelo menos agora sei que você foi de fato enviado por ela.
O estremecimento foi sutil, mas eu notei. Elend pareceu perceber que eu tinha usado aquela conversa toda para fazê-lo confessar, quase sem querer que Aerin estava por trás daquilo. Pelo menos, ele era alguém sagaz.
Deixei o sorriso malicioso surgir, à medida que voltava a olhar para a lua e ele ficou em silêncio por um instante, como se reorganizasse os pensamentos.
— Então foi por isso… — Elend murmurou, pensativo, o olhar distante — Eu sempre me perguntei por que aquela barreira enorme ao norte foi construída… A senhora não queria que as pessoas inocentes que ainda vivem lá fossem mortas pela sua magia… Então, a forma que a senhora encontrou de protegê-las foi isolar o continente.
Chutei uma pedra e ela rolou pela estrada até bater num tronco caído.
— Você realmente acha que sou tão poderosa quanto Aerin e que seria capaz de vencer aquela guerra?
Elend assentiu e aquilo foi suficiente para eu rir de forma irônica.
— As magias ofensivas não eram tão fortes há cento e vinte anos — Levantei a mão devagar e invoquei uma rajada suave de vento.
A mana queimou minhas veias e senti meus dedos formigarem, os canais ainda muito finos por conta do rebote da magia de selamento que usei no continente norte. Algumas pétalas de rosa surgiram dançando entre nós e Elend estendeu a palma, enquanto uma delas pousava ali.
— Até cerca de quinhentos anos atrás, a magia não era usada para ataques — Observei a rajada de pétalas desaparecer — Minha irmã tentava convencer nossa mestra a permitir magias ofensivas contra os demônios, mas quando Aerin assumiu o lugar dela e encerrou a era de Elsie, a magia passou a ser pensada como instrumento de guerra.
Desci o olhar para Elend, sorrindo de forma cansada.
— Então, a senhora realmente não conseguiria destruir aqueles generais? — ele perguntou.
— Naquela época, eu ainda não sabia muito bem como usá-las — Respirei fundo, pensativa — Mas, sendo sincera, é curioso como o que hoje chamam de magia básica de ataque nasceu das mãos de um dos generais do Senhor das sombras.
Frustrada, levantei os olhos para a lua e estalei a língua.
— Em poucas décadas, os humanos aprenderam exatamente como os demônios usavam a mana — Minha voz tremeu, quase se tornando um sussurro — Depois do selamento do norte, com todo aquele sangue e sacrifício, pensamos que viveríamos finalmente na Era da Paz. Eu acreditei. Acreditei com todas as forças que ainda me restavam.
— Mas outras guerras surgiram só que entre humanos… — Elend completou — Então todas as histórias sobre a senhora ser culpada, na verdade, é só porque a senhora se recusou a ser um instrumento das guerras que se sucederam?
Assenti.
— Foram tantos imperadores que tentaram me obrigar a ser sua maga pessoal e concubina que nem me lembro mais quem começou — estreitei os olhos — Quando a minha irmã percebeu o erro já era tarde demais e proibiu os magos da Associação de participarem das guerras entre os reinos humanos.
Elend sustentou meu olhar por um longo momento e vi o exato instante em que algo dentro dele fez tudo se encaixar.
— Então é por isso que a senhora viaja… sozinha — ele murmurou — Está protegendo o império de si mesma e evitando entrar em jogos palacianos, como Lady Aerin. Enquanto, ela protege o império na corte, você protege viajando e o meu mestre treinava os cavaleiros das capas vermelhas.
O sorriso que surgiu no meu rosto foi genuíno. Agora eu entendia por que a minha irmã confiava nele. Inclinei levemente a cabeça, mantendo o olhar fixo nele e foi então que seus olhos percorreram meu rosto, demorando-se um instante nos meus lábios.
Deixei o sorriso se tornar malicioso antes de indicar o caminho com a cabeça para continuarmos.
O silêncio foi a única resposta honesta que eu podia dar e Elend pareceu entender. A trilha foi se estreitando até que as copas dos jequitibás quase se tocavam acima das nossas cabeças e quando a vegetação abriu, o vilarejo estava lá ou o que havia sobrado dele.
As casas formavam uma fileira ao longo de uma rua sem nome, portas entreabertas e cercas inclinadas. O mato já havia tomado os vãos onde antes devia existir alguns quintais.
Parei no meio da rua principal e examinei o chão antes de olhar as casas. O barro seco guardava pelo menos cem passadas em fileiras, todas apontando para o norte, junto com marcas de roda de charrete e duas trilhas mais fundas.
Expandi minha percepção, mas não notei nenhuma flutuação estranha, nem mesmo qualquer sinal de desconforto ou vertigem que indicasse mana corrompida. Estalei a língua, frustrada.
Fui até a primeira casa e empurrei a porta com o pé. Dentro, a mesa tinha dois pratos postos com colheres alinhadas e a sopa incrustada nas bordas das tigelas. Percorri a sala, a cozinha e os quartos antes de chegar à porta do subsolo, que estava aberta.
Os ferrolhos estavam intactos. Por que não usaram os bunkers? Franzi o cenho, tentando encontrar qualquer marca de ataque de lobisomens, mas tudo ali parecia um lugar de onde as pessoas simplesmente desapareceram, exatamente como Alice havia dito.
— Isso realmente não parece um local que foi atacado — Elend disse atrás de mim — As marcas lá fora mostram que os soldados estiveram aqui com uma charrete e três carroças.
— Sim... — Assenti — Se os moradores tivessem escutado uivos, teriam reunido as famílias nos bunkers, mas a porta está aberta e os ferrolhos intactos.
Elend se aproximou, olhou para dentro e voltou a me encarar.
— Então será que saíram por vontade própria? — Ele ergueu a sobrancelha — Ou foram deslocados para um lugar seguro e é por isso que Lady Alice não encontrou ninguém aqui?
Dei de ombros e saímos da casa. Dei a volta pela construção do lado, examinando as marcas com mais calma. Os rastros se aprofundavam numa direção única, todos convergindo para o mesmo ponto, além da vila.
— Temos duas possibilidades — eu disse.
— A primeira pode estar relacionada à mentira que Lady Syllee detectou na conversa com Alice? — Elend perguntou, antecipando o meu raciocínio.
Assenti. Gostava de pessoas inteligentes e Elend parecia ter algo funcionando na cabeça, além de músculos e aquele rostinho bonito.
— Você sabe qual é a segunda? — eu perguntei.
Ele pareceu tentar encontrar a resposta no meu rosto, desistiu e negou com a cabeça.
— As pessoas do nordeste sabem exatamente o que fazer nesse tipo de situação — Ajoelhei-me para tocar uma das marcas de roda — Alguém usou isso para levar todo mundo para outro lugar. Se não foi Alice, foi alguém com poder suficiente para fazer os plebeus obedecerem.
— Um nobre ou um cavaleiro? — Elend pareceu perguntar para si mesmo.
— Quem quer que seja, usou o uivo para forçar essas pessoas a seguir ordens.
— Mas então o que exatamente está acontecendo aqui?
— Estamos numa encruzilhada... literalmente — Minhas sobrancelhas se uniram — A primeira possibilidade é que Alice não é quem diz ser.
— Um demônio disfarçado? — perguntou Elend.
— Era uma possibilidade, mas Syl não disse nada, então tenho quase certeza que não é.
— Então ela é o quê?
— A Alice não é exatamente uma humana, mas algum tipo de criatura... — Passei a mão sobre uma das marcas mais fundas, sentindo a textura da terra compactada — Quando usei minha percepção, não escutei o coração dela, então… ou ela está morta ou não tem um corpo físico.
Desviei o olhar para Elend que permanecia em silêncio com uma das mãos no queixo.
— Então é ela quem está controlando a criatura? — ele murmurou
— Não… — levantei-me e sacudi a terra dos dedos — Quem uivou foi uma estige, um servo de demônio. Não tem como ele ser controlado por um monstro de nível baixo, isso se Alice for mesmo algum tipo de morta-viva. Pela lógica, deve haver um demônio em algum lugar por aqui ou então a criatura está sendo controlada de outra forma. Ainda assim… tem algo que não faz sentido…
— Por que Lady Alice enviou a solicitação para a guilda dos aventureiros? — Elend completou antes que eu terminasse — A carta de solicitação de auxílio tinha o selo dos Avás, mas por que ela fingiu que não entendeu por que eu estava aqui?
Assenti.
— Acredito que ela achou que ia demorar até a coroa autorizar uma investigação formal.
Elend estreitou os olhos, examinou as marcas no chão novamente e depois voltou a me encarar.
— Sendo assim, o que vamos fazer?
— Precisamos conversar com o clérigo — eu disse, já caminhando de volta para Oakhaven.
— Não deveríamos ir atrás de Alice e descobrir se ela é um monstro?
— Não — eu disse e dei um suspiro curto — Se ela é um monstro e não demonstrou sede de sangue, é porque quer que a gente descubra o que está acontecendo aqui. Vamos seguir as pistas que ela deixou e fazer o que ela quer, seja lá o que ela for.
Elend processou a informação em silêncio. Olhei para ele por cima do ombro e seus olhos foram do meu rosto até a torre do relógio, visível dali, marcando oito horas da noite, então ele assentiu.
— Você quer investigar as ossadas que estão no necrotério, então?
— Sim — Acelerei a passada — Se o clérigo não for a estige, ele ainda deve ter o que sobrou das vítimas.
— Isso foi ironia ou um comentário de pura experiência? — perguntou Elend com o cenho franzido.
— Da última vez que cacei uma estige, ela estava literalmente rezando para a deusa Aurora — indiquei o caminho de volta com a cabeça e seguimos — O devoto mais sincero e… faminto que já vi.
Elend riu e eu não consegui segurar o sorriso.
Retornamos a Oakhaven quando o relógio da torre marcava oito e quarenta. A cidade estava ainda mais silenciosa e as poucas pessoas que estavam na rua viravam o rosto na nossa direção antes de desviar ao encontrar os meus olhos. Medo ou reconhecimento? Difícil dizer.
— Devo dizer que a reação das pessoas ao te olhar é bem mais… peculiar do que o meu mestre descrevia — Elend comentou, ajustando o passo para ficar ao meu lado.
— Você percebeu algo diferente em como eles estão nos olhando? — perguntei de soslaio.
— Parecem assustados e aliviados ao mesmo tempo — Elend franziu o cenho — É algo muito esquisito.
— Talvez, não saibam exatamente o que está acontecendo aqui, mas sabem que algo está errado — Passei os olhos pelas janelas fechadas da rua — Gente assustada sempre procura duas coisas: alguém para culpar ou alguém para salvar a situação. Às vezes, até as duas coisas na mesma pessoa.
Voltei a olhar para Elend, que mantinha meu ritmo sem esforço e, por um instante, ele me lembrou Alaric, mas afastei o pensamento antes que fosse longe demais.
— Seu mestre te treinou bem... — Cruzei os braços, olhando para as pernas dele.
Elend primeiro olhou para os próprios pés, depois para mim, claramente surpreso.
— Você percebeu?
— É claro que percebi. Desde que chegamos você mantém o ritmo das passadas igual ao meu — Apontei para os pés dele — Deve ter sido um treino infernal.
— E foi. Ele treinou todos os capas vermelhas da minha geração para que, quando te encontrássemos, pudéssemos ser úteis — Elend sorriu de leve — Mas, confesso que, desta vez te encontrei por coincidência… uma coincidência pela qual eu agradeço aos deuses.
— Por quê?
— Sempre ouvi histórias sobre a bruxa do réquiem — Elend pareceu pensar por um instante — Do mestre, mas também… de outras pessoas. Na capital existem algumas lendas urbanas sobre você.
— Que tipo de lendas urbanas? — Franzi o cenho — Faz um século que não vou a Porto Imperial.
— Algumas dizem que você aparece para puxar o pé de crianças malcriadas que não obedecem aos pais. Outras, que você surge se alguém disser seu nome três vezes em frente a um espelho. E ainda que, se alguém quisesse te fazer um pedido, bastava deixar comida na esquina de uma encruzilhada.
Ergui uma sobrancelha.
— Se fosse Syl, talvez, mas eu… eu nem pensa. Mas alguém realmente acha que apareço se deixarem comida numa encruzilhada?
Elend riu.
— Só essa parte chamou a sua atenção?
Dei de ombros.
— Por situações bem… diferentes, já aconteceu de essas outras duas serem verdade.
— O meu mestre também dizia isso.
— E o que mais Alaric falava de mim?
— Ele não falava de você como uma lenda — Elend ajustou o passo — Dizia que o que o você fez no norte foi a única forma do continente sobreviver. Que sempre gostou de pregar travessuras, de dormir e, principalmente, de beber. E que amava ainda mais quando encontrava alguém para dividir a vida, mesmo que fosse por pouco tempo.
Desviei o olhar para a estrada, tentando segurar o riso. Alaric sempre foi estranho dessa forma.
— Então, quer dizer que ele enfeitou tanto o que eu fiz para os outros, mas nunca teve coragem de se declarar para mim? Só o Alaric mesmo… — Senti os lábios sorrirem.
— O meu mestre também dizia que devia a vida dele à senhora e se sentia culpado por tudo — Elend desviou de uma poça — Ele nunca me contou o que de fato aconteceu no norte, mas dizia que não era merecedor de estar ao seu lado. Então, desde sempre, eu quis conhecer a famosa Lady Zara, a filha da deusa.
— Então você é apaixonado por essa versão que o seu mestre criou de mim? — Inclinei levemente a cabeça com um meio-sorriso desafiador — A de heroína divina e perfeita?
Elend sustentou meu olhar por um instante, um sorriso lento curvando os lábios, enquanto se inclinava um pouco na minha direção.
— Apaixonado pela ilusão dele? — Ele ergueu a sobrancelha — Não, Lady Zara. O que me atrai é saber que a mulher que marcou um homem como o meu mestre é, na verdade, uma divindade e que ele teve o azar de conhecer apenas uma entre as muitas de suas faces. Para falar a verdade, gosto mais da sua fase atual: uma mercenária cínica e sem vergonha que aceita quase todo tipo de trabalho para alimentar a Lady Syllee.
Fiquei sem resposta por um segundo e estalei a língua.
— Você é tão presunçoso quanto ele, só que com… bem menos pudor — Mordi o lábio inferior por um instante — Está mesmo querendo que eu te convide para algum lugar mais reservado?
Elend não desviou o olhar, pelo contrário, sustentou o meu com mais intensidade.
— Bem, Lady Zara, quem decide isso não sou eu.
Soltei um riso baixo, balançando a cabeça.
— Não me olhe assim. Já vou avisando… não sou deusa nenhuma, então não faça como seu mestre e não crie uma versão idealizada de mim — Suspirei, afastando uma mecha de cabelo do rosto — Eu só ajudei o Alaric, porque ele me promete que o imperador da época me daria isenção de impostos e um salário vitalício.
Elend arqueou uma sobrancelha.
— Então foi um acordo?
— Exatamente — Dei de ombros — Resolvi um problema dele e Alaric resolveu alguns dos meus.
Elend deu um passo sutil mais perto.
— A senhora ainda tem esses benefícios todos?
— Tenho… — Inclinei a cabeça, ainda encarando o olhar dele — Só que o que o imperador me prometeu naquela época não paga mais nada hoje em dia. Esqueci de pedir que o valor fosse reajustado com o passar dos anos, então tenho que aceitar algumas missões para complementar as despesas básicas.
Elend riu de novo, com a mesma facilidade de antes.
CAPÍTULO 4
A Reação de Zara ao Clérigo
Problema: Zara demora para perceber que o clérigo é um fantasma (ou algo semelhante). Ela nota a falta de batimentos cardíacos, mas só percebe a verdadeira condição dele quando tenta "lê-lo de verdade". A questão é: ela já havia notado a falta de batimentos e a ausência da bênção da deusa nele. A dedução de que ele é um morto-vivo poderia ter vindo mais cedo, fazendo com que a revelação no porão parecesse um pouco atrasada apenas para criar um momento de tensão.
Solução: Isso não é um furo grave, mas um ponto de suavização. Para tornar a percepção de Zara mais aguçada, você pode adicionar uma linha de pensamento quando ela nota a falta de batimentos: "Algo estava errado, mas a fadiga e a pressa a impediram de juntar as peças naquele momento." Assim, justifica-se a demora.
A Igreja de Aurora surgiu no fim da viela com suas colunas em espiral enquadrando o portal, a pedra mais desgastada do que eu lembrava.
Ergui o olhar para a estátua da deusa no alto da fachada e a saudade apertou antes que eu pudesse evitar. Minha mente logo foi invadida por aquela memória específica: minha mãe de pé diante de mim com a mão estendida, permitindo que eu acessasse a magia divina para proteger aquele planeta.
Fechei os punhos e bati duas vezes na porta. Atrás da igreja, o relógio da torre começou a marcar nove horas da noite.
Quem abriu a porta era um homem de batina escura com o brasão do sol nascente bordado no peito e cabelos grisalhos num rosto que aparentava pouco mais de quarenta anos.
Jovem demais para me reconhecer de memória. Isso poderia virar um problema se ele fosse apenas mais um clérigo burocrático.
— É tarde. Em que posso ajudá-los? — ele perguntou.
Tirei do bolso o colar com o símbolo da coroa ao redor do sol e estendi na direção dele. O pingente brilhou entre verde e amarelo-vivo, e vi os olhos do clérigo descerem para o objeto antes de subirem de volta ao meu rosto com os ombros levemente endireitados.
Sorri de lado ao notar que ele sabia o que era aquilo.
— Em que posso ajudar, Lady Zara?
— Vocês estão com algumas ossadas que foram atacadas por um lobisomem?
— Sim.
— Posso vê-las?
Ele não abriu a porta imediatamente. Os olhos voltaram ao pingente, depois subiram para mim, antes de assentir.
Ao mesmo tempo, captei uma leve ondulação de mana, sutil o bastante para passar despercebida. Tentei me concentrar naquela sensação, mas, assim como Alice, não fui capaz de captar nenhum batimento cardíaco no clérigo.
Minhas sobrancelhas se uniram. Tinha algo errado com essa cidade, e eu ainda não havia entendido o quê.
— Não posso negar um pedido da filha da deusa — disse o clérigo, abrindo a porta.
— Então ainda existem pessoas que se lembram do que esse pingente significa?
— A sua santidade Hakan nos instruiu a reconhece-la desde que entramos na escola da deusa — respondeu ele, indicando com a mão que o seguíssemos.
Então Hakan e Alaric estavam treinando seus pupilos para me ajudarem?
Desviei o olhar para Elend, que apenas me encarou. Dei de ombros e segui o clérigo. Contornamos o altar, ele logo à nossa frente. Uma abertura estreita se escondia na parede, revelando uma escada de pedra em espiral que descia mais fundo a cada volta até o ar ficar pesado e frio.
Quando alcançamos o último degrau, minha respiração saiu em pequenas nuvens gélidas. O corredor de pedra se estendia à frente, e no fim dele uma enorme porta de ferro nos aguardava.
Me aproximei e reparei nos símbolos gravados na verga: brasões talhados na pedra, um de magia de gelo e outro de sol nascente, marcas de contenção usadas para impedir que espíritos sombrios encontrassem abrigo em corpos inertes.
Enquanto avançávamos, mantive os olhos no clérigo. Um homem com acesso à bênção da deusa deveria ser puro, não deveria? Então por que eu não conseguia senti-la nele?
— Você é um especialista em magias de contenção? — perguntei.
Ele assentiu e abriu a porta após fazer um sinal com a mão, deixando a mana que bloqueava aquela passagem oscilar antes de ceder. Com um leve movimento de cabeça, indicou que entrássemos primeiro.
Logo avistei cinco ossadas dispostas sobre bancadas de pedra, cada uma separada das outras. O clérigo permaneceu junto à parede, as mãos cruzadas atrás do corpo, o olhar fixo no chão. Aquele detalhe específico ficou preso na minha mente enquanto pegava a lamparina da mesa lateral.
Elend seguiu direto para a bancada do lado oposto, sem que eu precisasse dizer nada. Havia algo eficiente naquilo, nesse modo dele de ler o espaço e ocupar exatamente onde era necessário sem nenhuma instrução.
Segurei o fêmur da primeira ossada, pesei-o na mão e o virei de um lado para o outro perto da chama. Limpo, sem fissuras, sem marcas de compressão, sem o desgaste que aparece quando uma besta arrasta um corpo pelo chão.
— Os ossos foram encontrados assim, limpos? — perguntei, sem tirar os olhos do osso.
— Sim — disse o clérigo.
— Todos pertenciam exatamente ao mesmo corpo ou estavam misturados? — perguntou Elend.
— Segundo os soldados, estavam separados. Quando os reconstituí, de fato pertenciam aos mesmos corpos.
Pousei o fêmur e passei para o crânio. Percorri a superfície com a lamparina, depois examinei o segundo, depois o terceiro. Todos intactos, sem sinal de violência, foi no tornozelo da terceira ossada que parei. Um furo de borda lisa e um canal estreito, a entrada de um canino que havia perfurado sem arranhas a ossada.
— Não há sinais de mordida — disse Elend. — Você encontrou algo?
— Todos estão limpos, como se algo tivesse tirado a carne sem força — afastei a lamparina e apontei com o dedo o tornozelo da terceira vítima. — Exceto esse aqui.
Troquei um olhar com Elend antes de virar para o clérigo.
— Algum desses ossos pertence ao bruxo que veio junto com os aventureiros?
— Não há marcas de mana nesses ossos. Nenhum dos brasões comuns da guilda dos bruxos.
Endireitei o corpo. O clérigo sustentou o meu olhar. E foi nesse instante, nessa fração de segundo em que tentei lê-lo de verdade, que algo na minha percepção deslocou. Ele não estava vivo; a presença dele era mais o eco de alguém que permanecia ali por insistência, quase como um espectro.
— Em que momento o senhor pretendia comentar isso? — perguntei. — Sobre a sua condição.
Vi Elend virar o rosto para mim e depois para o clérigo, tentando captar o que eu havia visto, e vi quando a expressão dele mudou para algo próximo à compreensão.
O clérigo endireitou os ombros e abaixou a cabeça em uma pequena reverência.
— Realmente, poucos detalhes escapam aos olhos da senhora, Lady Zara.
Inclinei a cabeça em concordância, sem gentileza nenhuma no gesto.
— Demorei um pouco para perceber — murmurei. — Mas sempre pensei que homens abençoados pela deusa costumavam ter destinos um pouco diferentes. Irem para Valorae.
O clérigo respirou fundo antes de responder.
— Ainda não tenho permissão de partir, senhora. Estou aqui para cuidar dessas ossadas até a senhora aparecer — disse. — Não pertencem aos aventureiros, tampouco ao bruxo.
— Então são uma espécie de pistas plantadas?
O clérigo não respondeu, apenas continuou me encarando.
— Quanto a mim — continuou ele. — Confesso que temi esperar muito mais tempo, mesmo que tenham sido apenas semanas.
— Décadas? — murmurou Elend.
— Algo próximo disso.
— Então vamos poupar o seu tempo — cruzei os braços. — O que exatamente aconteceu com Oakhaven?
O clérigo ergueu os olhos por um instante e depois voltou a baixá-los.
— Que a deusa Aurora me perdoe, mas certas respostas não consigo dizê-las. A senhora provavelmente já percebeu isso.
Sustentei o olhar dele. Aurora não estava mais neste universo, e aquele homem continuava preso a um protocolo que ela havia abandonado junto com tudo o mais. Havia uma ironia ali que eu não me dei ao trabalho de verbalizar.
— Aurora não está mais neste universo — eu disse.
— Certo, então o que exatamente você quer que façamos? Como vocês sabiam que Lady Zara iria aparecer aqui? — Elend perguntou.
O silêncio que se seguiu foi curto, mas pesado. Voltei a encarar o clérigo.
— Existe algum tipo de contenção aqui? Algo que prenda almas?
O clérigo demorou um momento, me encarou, e depois soltou um suspiro.
— O que Lady Alice contou à senhora sobre a filha dela?
— Apenas que ela foi atacada por um lobisomem.
O clérigo assentiu, voltando os olhos para o chão.
Ergui uma sobrancelha. Mostrar ossadas sem comentário só fazia sentido se ele esperasse que eu chegasse à conclusão sozinha, o que era inconveniente e levemente irritante.
— Imagino que não esteja nos mostrando os ossos apenas por nostalgia — disse, deixando um leve sarcasmo vazar.
— Essas pessoas estavam na caravana naquele dia — disse o clérigo. — A senhora notou algo além do fato de que as ossadas estão limpas?
Arregalei os olhos e voltei o olhar para os ossos. Me concentrei na percepção de mana; no início foi apenas uma oscilação leve, quase imperceptível, próxima à magia das sombras, e depois, aos poucos, pequenas nuvens escuras começaram a se desprender das ossadas.
Elend deu um passo mais perto.
— Isso deveria estar acontecendo? — perguntou em voz baixa.
— Foram corrompidas pela mana — falei. — O lobisomem que atacou a cidade não está agindo sozinho.
Elend cruzou os braços ao mesmo tempo que voltei a encarar o clérigo.
— Então ele já tem um mestre?
O clérigo sustentou meu olhar por alguns segundos antes de assentir.
— Não posso contar, Lady Zara, mas se a senhora continuar, será capaz de descobrir a verdade.
Inclinei levemente a cabeça.
— Você e Alice fizeram tudo isso?
O clérigo ficou em silêncio.
— Vou considerar isso um "talvez" — Elend soltou um suspiro curto.
— Tudo bem — disse, passando a mão pela testa. — Onde você quer que eu vá agora?
— Há um vilarejo na região que foi dizimado.
— Lady Alice mencionou isso — disse Elend. — Já estivemos nesse vilarejo ao leste. Não encontramos nada.
— Não — respondeu o clérigo, firmando os ombros. — O que Lady Alice mencionou foi o primeiro vilarejo atacado, semanas atrás. Estou falando do que foi dizimado na semana passada.
Troquei um olhar com Elend. Sempre um passo atrasados. E ele sabia disso tão bem quanto eu, via pela forma como a mandíbula dele endureceu um segundo antes de mascarar a expressão.
— Onde fica?
— Ao norte da torre do relógio.
Assenti, dando uma respirada mais funda do que o necessário.
— Tudo bem. Vamos descobrir onde está o dispositivo que está drenando sua alma — disse, passando pelo clérigo em direção à porta. — Todas as almas desta cidade foram capturadas?
O clérigo permaneceu quase totalmente imóvel, mas balançou a cabeça levemente em concordância. Agradeci com um aceno e subi a escada, com Elend logo atrás.
No topo, parei por um instante antes de empurrar a porta da igreja.
— Alice quer que encontremos essas pistas — disse. — Agora entendi o que está acontecendo nessa cidade.
— Oakhaven se tornou uma cidade fantasma?
— Infelizmente.
Caminhamos em silêncio por menos de um quarteirão quando avistei Alice com o cesto pendurado no braço e a lamparina oscilando na mão, dobrando a esquina na nossa direção.
— Lady Alice? — perguntou Elend.
— Esperava encontrá-los por esse caminho — respondeu ela, fazendo uma reverência. — A noite está avançando e está bem mais fria do que o normal para esta época. Pensei que talvez aceitassem jantar em minha casa.
— Agradecemos a hospitalidade — respondi. — Mas temo que não ficaremos muito tempo em Oakhaven.
— É uma pena Lady Zara, esperava poder escutar algumas histórias de suas aventuras.
Alice desviou o olhar por um instante para o norte, uniu as sobrancelhas e voltou a me encarar.
— Meu avô sempre me contava histórias sobre a sua reputação, Lady Zara. Dizia que a senhora é alguém que não descansa quando encontra um rastro, mesmo que o caminho leve a respostas incômodas ou exija decisões difíceis — Alice ergueu os olhos na direção do norte outra vez — Ele me falou que quando te conheceu, você o salvou de um lobo… Quem pensaria que você também estaria aqui, de novo para nos salvar de uma fera assim.
Mordi o lábio e mantive o olhar firme, mas sentido uma forte sensação das lagrimas surgiram no meu rosto.
— Lobos raramente caçam sozinhos, Alice — respondi, forçando a voz a não falhar. — Eles observam, cercam… e só avançam quando não há mais dúvida.
— Espero que sua busca não seja perigosa… há caminhos que são bem mais profundos do que parece. Que a deusa ilumine seus passos.
O ar pareceu mais denso contra o meu peito. Meus dedos se fecharam devagar, como se o aviso tivesse encontrado algo que eu já sabia.
— Seu avô era um homem sábio — respondi, deixando um sorriso surgir, leve demais para alcançar os olhos. — E quanto aos caminhos que outros preparam… prefiro andar pelos meus. Não chegaria muito longe se cedesse a cada desnível que alguém resolve abrir no meu caminho. Nos veremos em breve, Alice.
Inclinei a cabeça numa reverência breve antes de seguir adiante. Virei na esquina oposta e deixei o silêncio fazer o trabalho por alguns instantes.
— Alice está aflita... Temos que resolver logo tudo isso Elend — falei, parando para encara-lo.
Ele concordou com a cabeça.
— Ela estava olhando para o norte... — Elend fez uma careta — Todas as pessoas que encontramos até agora são fantasmas?
— Parece que sim...
Elend estreitou os olhos, e aquela falta de espanto me fez arquear uma sobrancelha. Menos surpreso do que eu esperava, o que significava que ele já sabia de algo.
— Aerin sabia do que estava acontecendo aqui? — eu perguntei.
Claro que sabiam. Estalei a língua.
— Minha irmã sabe que eu não suporto homem peludo. Curioso como sempre aparece um lobisomem no meu caminho…
Elend soltou uma risada, passando a mão no queixo e alisando a barba por fazer.
— Fique tranquilo, você ainda tem salvação — eu disse, sorrindo de forma maliciosa — Não tem problemas quando são apenas alguns pelinhos...
Elend inclinou a cabeça, olhando para mim de lado, e aquele brilho no olhar me disse que ele estava se divertindo mais do que deveria.
— Quer que eu comece a uivar ou ainda não chegamos nessa parte?
Eu ri, mas logo ajeitei a postura. Foco. Respirei fundo e o encarei com mais firmeza, deixando o humor dar lugar ao que realmente importava.
— Minha irmã te enviou porque sabia que eu estava indo para o nordeste e passaria por Oakhaven? — estreite os olhos — Ela aproveitou essa missão para te mandar e me ajudar enquanto minha magia ainda não retornou completamente?
Elend confirmou com um movimento de cabeça.
— Droga — fiz uma careta. — O que o departamento de astronomia disse?
— Que a estrela vermelha ressurgiu nos céus — ele respondeu, mordendo o lábio.
— Tudo bem, Elend. A partir de agora, tudo que minha irmã te disser você vai me relatar, tudo bem? — respirei fundo.
— Então a senhora vai permitir que eu continue viajando ao seu lado?
— Foi para isso que ela te enviou, não foi? — balancei a mão, como se afastasse algo no ar — Eu estava precisando de um guerreiro… E você vai ser útil de mais formas do que imagina.