Eu nunca tinha lido nada de Jo Nesbø, então não conhecia a série Harry Hole nem os casos ambientados em Oslo.
E, para ser sincero, talvez tenha sido melhor assim, pois, já de início, me vi imerso nessa história que transforma a capital norueguesa numa espécie de Gotham nórdica, com becos escuros, acampamentos de sem-teto e uma luz do sol que, de tão amarelada, parece doentia.
É justamente nesse cenário que Harry Hole resolve seus casos, e, a partir daí, é impossível não ficar colado a cada novo acontecimento dessa série. Claro, ainda sofremos com alguns problemas expositivos da Netflix.
Mas, como o autor Jo Nesbø está envolvido diretamente nessa adaptação, muitos dos problemas que as séries recentes da plataforma apresentam — como tramas que rodam em círculo para que apenas nos últimos episódios algo de fato aconteça, episódios longos demais apenas para inflar de forma artificial o total de horas assistidas e a ideia de séries como uma segunda tela, na qual quem está assistindo geralmente está mexendo no celular — aqui são bastante amenizados.
Com isso, há muitas situações, pistas e decisões narrativas que, se você não estiver prestando atenção, não irá conseguir captar, o que é um acerto gigantesco e já coloca essa série acima da média das produções policiais e investigativas da Netflix.
Além disso, todo o ar noir da história me deixou ainda mais preso nessa trama, a ponto de naturalmente me motivar a ir atrás dos livros do autor.
Até onde eu entendi, a série adapta A Estrela do Diabo, o quinto livro da saga Harry Hole, e já começa com a premissa de uma dupla trama que se emaranha, ao mesmo tempo em que parece desconexa, mas que, no fim, faz sentido e explica como cada evento aconteceu.
Dentro disso, uma das tramas acompanha um assassino em série que deixa corpos com um diamante vermelho sob a pálpebra das vítimas, enquanto a outra gira em torno de um policial corrupto que precisa ser derrubado. Há ainda um terceiro caso de desaparecimento que logo se desenrola como parte da série de assassinatos.
Assim, são dois eixos narrativos caminhando ao mesmo tempo, e a série consegue equilibrá-los sem deixar nenhum perder força.
Mesmo que, em alguns momentos, sendo sincero, eu tenha ficado meio confuso sobre a importância de um em relação ao outro, a narrativa se mantém firme, apesar de leves escorregões que não comprometem tanto assim o entendimento e a resolução.
Nesse contexto, acompanhamos Harry Hole, que dá nome à série, e que se apresenta como uma espécie de anti-herói clássico, brilhante, alcoólatra e autodestrutivo.
O que me surpreendeu foi saber que Jo Nesbø não apenas assinou a criação da série, mas também é o roteirista de todos os episódios. Como consequência, o resultado é algo magnífico, com cada personagem ganhando uma profundidade que só o criador original conseguiria entregar.
Ele não cedeu o controle para Hollywood, e, por isso, claramente vemos a mão do autor em toda a trama. Ainda assim, vale dizer que, em alguns momentos, certas informações, resoluções ou a forma como tudo vai se encaixando podem parecer um pouco confusas.
Apesar disso, no final, você tem a sensação de que tudo faz sentido, embora eu tenha desejado sentir menos aquela impressão de, em alguns momentos, não estar entendendo o que estava acontecendo por parecer confuso demais.
Seguindo nessa linha, a trilha sonora merece uma menção separada. A curadoria musical parece ter sido escolhida pelo próprio Harry, pois tudo encaixa no clima sombrio da série sem soar forçado.
E isso se conecta diretamente com a forma como Oslo é retratada. Aqui, não é aquela cidade limpa e organizada dos cartões-postais; a produção constrói uma metrópole com cantos podres, guerras de gangues e uma sensação constante de que qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento.
Visualmente, a paleta de cores é escura, com azul-marinho pesado, verde hospitalar e marrom lamacento, enquanto a luz natural parece existir apenas para criar sombras. É a fotografia a serviço da narrativa, trazendo toda a atmosfera noir que essa obra merece.
Dentro desse mesmo clima, os assassinatos ritualísticos são perturbadores do jeito certo. Não é gore gratuito pelo gore em si; há uma lógica macabra por trás de cada cena, e a série usa isso para manter o suspense em níveis altos sem recorrer a truques baratos. É tortuoso, estilizado e, em certos momentos, gloriosamente sombrio.
Com isso, cada episódio termina em um cliffhanger. Sério, eu tentei parar para dormir e não consegui. Quase todos os episódios fecham com um gancho, o que torna impossível não apertar “próximo episódio”. A série foi claramente pensada para ser consumida de uma vez, e entrega exatamente isso.
Ainda assim, um ponto que vale citar é que a série tem nove episódios de quase uma hora cada, e a sensação, no meio da temporada, é de que ela perde um pouco de fôlego. É aqui que provavelmente entrou o dedo da Netflix para estender um pouco demais a trama e inflar as horas assistidas.
Mesmo assim, apesar dessa pequena escorregada, isso não compromete toda a experiência.
Para ser sincero, na minha opinião, essa história teria funcionado melhor com seis episódios, o que resultaria em uma trama impecável.
Inclusive, algo que outra série maravilhosa, de estilo noir e recente, que é Slow Horses faz com maestria ao contar uma história redondinha em poucos episódios, deixando a sensação de uma obra impecável.
Aqui, nos nove episódios, existem alguns desvios desnecessários que me causaram certo desconforto. Ainda assim, isso não compromete o conjunto; funciona mais como um aviso para você não estranhar se o episódio cinco parecer mais lento.
Por fim, se você nunca leu os livros, como eu, pode assistir sem problemas. A série funciona sozinha, apresenta o universo sem precisar de infodump chato e ainda deixa claro que há muito mais por vir.
Já para quem leu os livros e busca fidelidade, com Nesbø no comando, acredito que a adaptação faz jus ao material original.
No fim, Os Casos de Harry Hole é exatamente o que um thriller noir precisa ser, denso, imprevisível, angustiante e com personagens interessantes e bem construídos.
E, justamente por isso, é, sem dúvida, uma das melhores séries de investigação que a Netflix já produziu nos últimos tempos.