Existe uma categoria específica de filme ruim. Não o ruim divertido, aquele que você assiste com os amigos e ri das trapalhadas, mas sim o filme tão ruim que, mesmo quando você tenta assistir só para passar o tempo e desligar o cérebro, ele se torna incômodo. São aqueles filmes que, de tão ruins, conseguem desperdiçar tudo que tinham de bom, até mesmo a lógica básica de assistir a algo sem querer pensar.
Dentro desse cenário, Letras da Morte se encaixa perfeitamente nessa segunda categoria e, sinceramente, isso não é um elogio. Quando fui assistir a esse filme, estava cansado, não queria pensar em nada, só queria acompanhar um filme de investigação fraca.
Porém, o que o filme conseguiu fazer foi exatamente o oposto: a cada cena, eu me pegava pensando que não era possível que o roteirista e o diretor tinham escolhido aquilo, sério.
A frustração aumenta ainda mais porque a premissa tinha potencial para um bom filme de investigação sem tanta profundidade. Basicamente, os protagonistas precisam investigar um serial killer que usa o jogo da forca como protocolo de assassinatos. Uma letra por vítima, um crime a cada 24 horas. A ideia é interessante e facilita não ter que pensar muito, afinal, tudo gira em torno de descobrir quem será a próxima vítima e quem é o assassino. No entanto, essa promessa se transforma rapidamente em uma das maiores pataquadas que eu já vi sendo gravadas com bons atores.
E isso nos leva ao elenco, que é, no mínimo, curioso: Al Pacino, Karl Urban e Brittany Snow. Três nomes conhecidos, o que só reforça o questionamento de por que aceitaram fazer parte de uma história tão mal lapidada e estruturada. É evidente que houve algum motivo, mas, na tela, o que se vê é um contraste gritante entre talento e material.
Nesse contexto, Pacino parece passar o filme inteiro sem vontade de estar ali. Ele engata um personagem na marcha ré, com momentos de intensidade abafados e uma energia de quem acordou segundos antes de entrar em cena. Para completar, entrega um sotaque que chega a ser risível, lento e arrastado, sem combinar com o personagem nem com o tom do filme.
Com isso, fica claro que o problema vai muito além da atuação. O roteiro é tão fraco que nem o peso de um nome como Pacino consegue sustentá-lo.
Se já não bastasse, o ponto mais fraco do roteiro aparece na jornalista interpretada por Brittany Snow. A presença dela até faz algum sentido narrativo, mas suas ações comprometem tudo: ela contamina cenas de crime sem luvas, entra em áreas de risco com suspeitos por perto, e o filme trata isso como absolutamente normal.
Ou seja, o próprio filme não se leva a sério como investigação. Até aceito essa proposta mais relaxada, mas chega a um ponto em que não faz sentido algum, como quando ela invade um local com risco de morte e age como se fosse segurança dos policiais.
É o tipo de escolha que tira o espectador da história na hora. E são justamente esses detalhes que impedem qualquer tentativa de assistir com o cérebro desligado, porque a todo momento surge a pergunta: por que os personagens estão tomando decisões tão burras e sem sentido?
Além disso, há um problema estrutural que compromete ainda mais a experiência. Em um filme de investigação, o público deveria participar do mistério, mas aqui isso não acontece. As pistas não são apresentadas, e o assassino só surge quando os detetives já descobriram tudo sem qualquer logica. Não há espaço para dedução, não há envolvimento. Para um thriller investigativo, esse é um erro básico.
A atmosfera fria e cinza, com uma tentativa de toque noir, até busca criar urgência, mas a direção de Johnny Martin não consegue sustentar suspense de verdade.
Essa falha se estende para outros aspectos. Ele não cria tensão nas cenas de violência e não extrai o melhor de nenhum dos atores. Soma-se a isso uma sensação constante de saltos temporais e lógicos, como se fosse um filme feito para redes sociais em uma época em que esse estilo ainda nem era predominante. O resultado é uma narrativa extremamente picotada. Para piorar, até mesmo a principal pista do suspeito surge sem qualquer lógica, como se o filme simplesmente dissesse “olha aqui o que faltava”, sem se preocupar em fazer sentido.
Quando chega a hora da revelação, a situação não melhora. A motivação do vilão é rasa, sem sentido e não explica praticamente nada, dando a impressão de que os próprios roteiristas não sabiam como resolver a trama e simplesmente colocaram qualquer coisa.
Isso fica ainda mais evidente no clímax, que depende do próprio assassino explicando em voz alta tudo o que está acontecendo para o espectador. Esse recurso já diz muito sobre a fragilidade da construção narrativa ao longo do filme. O que deveria ser impactante se torna, na prática, a cena mais cansativa de todas, além de provocar uma boa dose de vergonha alheia.
Diante de tudo isso, o resultado final é uma obra que se leva a sério demais para o nível que entrega. É péssimo, horrível, fraco.
Ainda assim, não é impossível de assistir. Se a ideia for apenas passar o tempo sem exigir muito do cérebro, até dá para encarar, embora, em muitos momentos, as soluções e atitudes dos personagens tornem essa tentativa de desligar o cérebro praticamente impossível.
No fim, talvez o resumo mais honesto seja este: uma ideia que merecia um roteiro de verdade, três atores que mereciam uma trama interessante e uma sessão despretensiosa que merecia mais do que o tempo que foi gasto.