Quarenta e oito horas antes...
Syllee pairava diante de mim, os cabelos ruivos, do mesmo tom que os meus, espalhados no ar como chamas suspensas. Torcia o nariz, enquanto examinava a si mesma, sem fazer esforço algum para esconder o incômodo.
— Por que você aceitou caçar um chupacabra? — perguntou ela, indignada — Agora nós duas estamos fedendo a bode molhado.
Deixei escapar um meio sorriso e voltei a atenção para a janela do bar. Lá fora, a multidão ocupava cada espaço, dançando atrás dos bardos que tocavam instrumentos de sopro e cantavam sobre a deusa Aurora que enfrentou os irmãos primordiais há sete mil anos.
— Porque você pediu aquela quantidade absurda de comida e o cliente prometeu pagar as despesas se aceitássemos caçar aquele chupacabra — respondi, puxando o copo de hidromel.
— Culpa sua, então — Syllee resmungou e foi até a janela, mantendo o nariz apoiado no braço — Você é quem deixa eu pedir tudo que quero.
Translúcida como vapor quando queria e sólida o bastante para ocupar espaço quando precisava, Syllee inclinou-se sobre o vidro. Os olhos verdes iguais aos meus, voltados para fora, talvez, cogitando abandonar o próprio cheiro do lado de cá.
Antes de beber, acrescentei:
— Pelo menos você conseguiu uma boa reserva de mana.
Observei-a com mais atenção. Ela estava maior do que dias atrás, mãos e rosto agora bem definidos, embora as extremidades ainda se desfizessem em névoa. Syllee vestia o mesmo vestido preto simples, de corte juvenil, caindo até as canelas.
Não me lembrava de tê-la visto com outra roupa em séculos e duvidava que ela própria se lembrasse também. Em um instante, já estava ao meu lado outra vez, rápida e inconveniente como um pensamento intrusivo.
— Por que você ainda bebe isso? — Syllee fez uma careta para a caneca — Agora eu tô com esse gosto amargo na boca por causa desse lixo.
Inclinei a cabeça, sem pressa, deixando o silêncio pesar só o bastante para irritá-la.
Aproveitei para baixar os olhos para minha camisa cropped de gola alta que estava amassada depois da noite inteira na rua. Não tinha muito a comentar sobre usar o mesmo tipo de roupa há quase cem anos.
— Então aproveite o gosto em silêncio — eu disse tentando desamassar a roupa.
Syllee estalou a língua. Os fios de cabelo ondularam ao redor do rosto moreno e angular antes de se desfazerem, as cores do corpo pulsando entre moreno e azul-turquesa, conforme a irritação crescia.
— Quanto estão cobrando por um bom banho por aqui? — resmungou ela, cruzando os braços — Não importa, vai logo tomar um banho decente para eu me sentir limpa também.
Passei a mão pelos meus cachos vermelhos, que já estavam fora de lugar e desalinhado como sempre ficavam depois de uma noite caçando monstro, e olhei para minha saia verde presa pelos cintos carregados de frascos. A meia-calça preta rasgada e a lama seca nas solas das botas confirmavam que ela tinha razão, embora eu não fosse admitir isso.
— Uma pequena moeda.
— Uma pequena moeda de prata? — Syllee rodopiou na minha frente, ficando quase vermelha — Isso dá quinze pães! Que roubo!
Desviei o olhar da janela e sustentei o dela, sem pressa. Quando alguém me encarava assim, de perto, quase sempre os olhos verdes é que chamavam atenção primeiro.
Já ouvi mais de uma vez que eram a única parte de mim que não pareciam assustar as pessoas. No resto, eu era exatamente o que aparentava ser. Uma elfa.
— Então você vai cheirar a bode molhado por mais uma noite — respondi, rindo — Agora, desde quando você se importa tanto com banho?
— A culpa é sua, você que me fez assim, Zara!
A névoa que a compunha se ajustava ao contorno do corpo, o azul metálico da mana pulsando mais forte a cada segundo.
— Eu sei, eu sei — disse eu — Por isso você é linda, mas tem um poço sem fundo de impaciência.
Syllee estalou a língua, girou no ar duas vezes e pousou no encosto da cadeira à minha frente, cruzando as pernas como se estivesse prestes a presidir um julgamento.
Enrolei uma mecha do cabelo no dedo, enquanto deixava o olhar percorrer o bar, depois empurrei outra para trás da minha orelha pontuda.
As lâmpadas de cristal de mana espalhavam uma luz azul sobre as mesas, fazendo o suor brilhar na pele dos clientes que riam alto, gritavam e batiam palmas para os bardos do lado de fora.
Alguns bêbados tombavam no chão e ficavam largados até que os amigos resolvessem arrastá-los pela rua.
— Por que você tá perdendo tempo observando esse festival? — perguntou Syllee — Não é igual em qualquer lugar?
Porque me faz lembrar dele.
Deixei o pensamento onde estava e, em vez de responder, acompanhei os bonecos gigantes que passavam acima da multidão. Os corpos desproporcionais e as cabeças enormes balançavam, ao passo que eram conduzidos pela multidão na rua.
— Ah, então é hoje? — Syllee ergueu o queixo, me encarando por cima do ombro — Faz quanto tempo?
Tentei fazer a conta de cabeça, conforme, levava o hidromel à boca devagar e deixava o amargo se espalhar.
— Vinte anos… — Fiz uma careta — Talvez, quarenta?
Syllee soltou um suspiro curto, impaciente.
— Ou foram vinte ou foram quarenta, Zara. Não é uma diferença pequena para você se confundir. Ainda não aprendeu que quarenta anos é uma vida inteira para um humano?
Dei de ombros e tomei outro gole.
— Nunca fui boa em medir o tempo, assim como você é um desastre administrando o nosso dinheiro.
Syllee puxou o ar com força, parecendo ofendida na medida certa.
— Desastre? — Ela estreitou os olhos — Você só não quer admitir que os seus trabalhos não pagam nem as nossas despesas básicas.
Ergui o rosto da caneca, segurei a resposta mais ácida, porque dar o que ela queria não ia melhorar meu humor.
— Despesa básica é uma noite numa pousada decente, uma cama limpa, três refeições e, com sorte, um lanche — coloquei a caneca na mesa — Não inclui devorar três quilos de carne de bode no mesmo dia em que caçamos um chupacabra.
Syllee deu de ombros.
— Gosto de me manter bem alimentada. Diferente de você que vive de teimosia e dessa bebida horrível.
Inclinei a cabeça e avaliei aquele corpo leve demais para tanta insolência.
— Syl, você tem quinze centímetros e não pesa nem quinhentos gramas. Pra onde vai tudo isso que você come?
Syllee deu de ombros de novo e ficamos alguns minutos em silêncio.
— Você ainda se sente culpada pelo que aconteceu no norte? — ela perguntou.
— Você sabe a resposta... Por que ainda pergunta?
Syllee cruzou os braços, ficando alguns centímetros acima do encosto da cadeira.
— Porque você ativou o seu bloqueio mental — Syllee suspirou — E porque, às vezes, é bom botar pra fora, em vez de deixar apodrecer dentro da sua cabeça imortal.
Soltei um riso curto pelo nariz.
— Desde quando você fala como o Hakan?
— Só quando eu percebo que você tá remoendo o passado — respondeu Syllee, bufando — Sem contar que durante nossa última jornada para o norte, aprendi uma ou duas coisas com ele… O Alaric gostava dos sermões do Hakan.
Levei o copo aos lábios, mas não bebi. Só precisava de algo para ocupar as mãos.
— Onde você acha que o Alaric está? Em Valorae?
— Não sei se ele foi para esse tal “descanso” das almas…— disse Syllee, baixando um pouco a cabeça — Mas, onde quer que esteja, é melhor do que aqui. Pelo menos não deve tá cheirando a bode molhado.
Dessa vez, a risada escapou antes que eu a contivesse e Syllee sorriu de volta, satisfeita.
— Syllee, você acha que alguém lembra do que de fato aconteceu?
Syllee inclinou a cabeça, pensativa.
— Não sei... a memória dos humanos é curta. Devem lembrar que vocês perderam a batalha, mas devem ter esquecido que foi por causa de vocês que o continente venceu a guerra — disse Syllee, unindo as sobrancelhas antes de levantar a cabeça — Enfim, esse festival só existe por causa de vocês e, em resumo, é só isso que devem lembrar.
Passei o dedo na borda da caneca. O bar enchia, à medida que a noite avançava e a todo minuto, gente deixava o festival e trazia cheiro de tabaco, suor e euforia para dentro.
— Esses festivais não existiam antes — desviei os olhos da porta para ela — Provavelmente, nem sabem por que comemoram nessa época do ano.
Syllee soltou o ar num quase riso.
— Será que eles se ofenderiam se descobrissem que isso começou como uma tentativa do Alaric de te pedir em casamento?
Ri e assenti. Ela piscou duas vezes, inspirou fundo e ergueu o queixo, os olhos presos em algo atrás de mim.
— Tem um idiota se aproximando — cantarolou Syllee.
Virei o suficiente para olhar por cima do ombro e reconheci o homem. Estava bem mais velho agora, mas continuava o mesmo bêbado brigão.
Ele abriu caminho entre as mesas com a mesma confiança torta de sempre. O gibão de couro carregava manchas antigas de gordura e o jeito de andar denunciava um histórico longo de quedas mal resolvidas.
O olhar dele vinha em linha reta, grudado em mim. A boca se abriu, fechou e, no momento em que tentou desviar de uma cadeira mal colocada, perdeu o apoio, tropeçou e o corpo veio à frente.
A mão bateu na minha caneca, espalhando o hidromel pela mesa e ele terminou no chão.
Acompanhei o caminho do líquido antes de baixar o olhar para o rosto inchado de álcool e irritação do idiota. O cabelo castanho caía pesado sobre a testa, a barba espessa escondia metade do rosto. Tirando o tamanho e o excesso de pelos, ele continuava igual ao moleque de anos atrás.
Ele tentou se levantar, falhou no meio do caminho e desistiu. O olhar subiu até mim, encontrou os meus e ficou ali.
— Porque você tá aqui na minha cidade de novo, sua vagabunda medros! — rosnou o bêbado, ainda caído no chão.
O sangue subiu rápido pelo meu rosto. Inspirei devagar, segurando a resposta onde devia ficar, porque dar o que ele queria significava transformar aquilo numa desculpa para passar a noite numa cela. Procurei Syllee com os olhos, mas ela já pairava acima de mim.
— Ele é o mesmo daquela época? — perguntei — Quando foi a última vez mesmo?
— Infelizmente, é ele sim — Syllee cruzou as pernas no ar como se estivesse sentada numa cadeira invisível — Uns vinte anos? Ou será que foram quarenta?
Revirei os olhos ao perceber que ela me devolveu a mesma resposta e voltei a encarar o homem. Ele soltou um som preso entre soluço e arroto, tentou se erguer com o resto de dignidade que encontrou.
— Sua maga velha! — gritou, cambaleando — Com que fantasma você tá falando?
Sorri de lado e soltei o ar pelo nariz, devagar.
— Uma criança como você não aprendeu que bebida é para adultos? — continuei sentada — Ou será que a lição nunca entrou na sua cabeça?
Ele apontou um dedo encardido na minha direção, à medida que o braço oscilava.
— Sempre que você vem aqui, traz azar, sua bruxa! — o bêbado soluçou — Vá embora logo, ou eu a levo ao prefeito e exijo um julgamento por combate.
Inclinei a cabeça e dei a ele toda a atenção que aquela ameaça merecia.
— Você acha que consegue me derrotar?
Ele riu, mas o som morreu na garganta.
— Como eu perderia pra uma maga que fugiu com o rabo entre as pernas do extremo norte? — o dedo balançou outra vez.
Aquilo explicou mais do que ele pretendia, provavelmente. Talvez, tivesse perdido alguém no norte ou quem sabe ainda tivesse algum familiar pagando por decisões que tomei décadas atrás, na mesma época em que começaram a me chamar de bruxa que matou o herói celestial.
Me levantei sem pressa, dando a ele tempo para recuar, caso tivesse algum juízo. Já de pé, ergui o queixo e sustentei o olhar até que ele fosse obrigado a encarar o meu.
— Então você quer me desafiar em combate pra julgar o que fiz no norte? — perguntei — Tem um motivo pessoal ou é só um idiota mesmo? Porque, se tiver, talvez, eu considere aceitar.
Ele abriu a boca, mas algo no meu rosto o fez hesitar. A bebida dá coragem, eu sei, mas existe uma diferença clara entre bravata de taberna e morte de verdade, e reconheço quando alguém também percebe isso. Mesmo assim, ele sustentou o olhar.
— Não há lugar aqui para tipos como você, sua vagabunda! — rosnou mais uma vez — Aqui, em Abateueba, não precisamos de gente da sua laia. Esta é uma vila decente.
Não respondi ao discurso, simplesmente peguei a caneca que ainda tinha algum líquido dentro e me afastei um passo. De relance, observei o taberneiro. Ele conhecia a minha reputação o bastante para não tentar me cobrar a mais, mas não o suficiente para intervir quando algum imbecil resolvia latir.
Quando os nossos olhares se cruzaram, o rosto do taberneiro perdeu a cor e pareceu surgir um interesse súbito em algo atrás do balcão.
Pelo canto do olho, vi a mão do bêbado subir na minha direção. Segurei os dedos dele antes que me tocassem, travei a articulação no ponto certo e apliquei pressão. O corpo grande cedeu, os joelhos dobraram e o queixo dele bateu no tampo da mesa.
A taberna mudou no mesmo instante. Cadeiras rasparam, alguém gritou algo que se perdeu no ruído e um freguês correu para a porta. O taberneiro me encarava agora com medo e alívio, uma combinação honesta, devo admitir.
Mantive o dedo do bêbado preso e torci o braço o suficiente para forçá-lo a se erguer da mesa. Quando ele conseguiu ficar de pé, soltei. Ele recuou, a mão pressionada contra o peito.
— Quando a bebedeira passar, acenda uma vela para a deusa Aurora em agradecimento por eu estar de bom humor — puxei a cadeira e me sentei de frente para a janela.
O bêbado continuou recuando sem olhar para trás, tropeçou no próprio pé, mas dessa vez conseguiu se equilibrar. Ninguém tentou segurá-lo, apenas abriram espaço para que fosse embora.
O silêncio que ficou era denso, mas não desagradável. Arrumei a mesa e, nesse intervalo, Syllee surgiu diante do meu rosto, flutuando.
— Você devia tê-lo transformado num porco, teria sido bem mais divertido… — disse Syllee franzindo o cenho — Além disso, a sua magia tá acumulando pó.
— Não tá acumulando pó — respondi rápido, sem encará-la — E não preciso transformar bêbados em porcos só pra te entreter.
Syllee deslizou para o meu lado com as mãos na cintura, soltando um suspiro.
— Quando foi a última vez que você usou magia? E não vale esse bloqueio mental irritante que você ativa toda vez que não quer falar comigo.
Levei a caneca aos lábios e terminei o que restava do hidromel antes de responder:
— Não ia transformá-lo só porque ele falou besteira.
Syllee analisou o meu rosto como se procurasse fissuras e depois deu de ombros.
— E por que não? — murmurou Syllee — Os outros porcos iam reclamar da concorrência?
Já abria a boca para devolver uma resposta à altura quando um arrepio subiu pela minha nuca. Não precisei de explicação. Virei o suficiente para confirmar o que o meu corpo já tinha entendido.
A capa vermelha chamou minha atenção primeiro, seguida pelo corte militar dos cabelos loiros. Levantei antes de ver o resto, mas bastou uma olhada para perceber que o rosto era bonito, se você considera um rosto padrão bonito.
O maxilar era marcado, a barba loira por fazer, aparada o bastante para parecer uma escolha. Os olhos azuis contrastavam com os meus verdes e a forma como me observava deixava claro que ele sabia quem eu era.
— Se você veio me prender, eu não tive culpa — falei, sustentando o olhar dele — O homem me atacou sem motivo.
Syllee assobiou ao meu lado, nada discreta, e começou a rodeá-lo no ar com interesse demais para o meu gosto.
— Ele é bonitão — murmurou Syllee, girando devagar — Quem sabe ser presa não seja um bom negócio…
Revirei os olhos antes de encarar o dono da capa vermelha de novo. A armadura de couro cobria o torso e os ombros, flexível o bastante para não prender os movimentos. Fiz uma anotação mental sobre aquilo, esse homem preferia mobilidade à proteção pesada. Isso exige confiança, sobretudo para alguém que carrega autoridade nas ruas.
— A senhora é Lady Zara? — perguntou o desconhecido.
A voz era grave, segura do próprio peso. Cruzei os braços e o medi da cabeça aos pés, do mesmo jeito que ele fazia comigo, prestando atenção à postura, ao ritmo da respiração e às mãos livres. Uma delas pousada no pomo da espada.
— Depende — respondi com um sorriso enviesado — Se for mais um chefe da guarda a serviço de um nobre desesperado com a filha sumida atrás da minha ajuda, então não. Hoje sou só uma faxineira.
Ele soltou um riso curto e ajustou os ombros.
— É um prazer conhecê-la, Lady Zara — disse o desconhecido, inclinando a cabeça — O meu nome é Elend.
Sustentando o meu olhar sem vacilar, a expressão dele não se desviou, nem tentou me medir pelas beiradas. Poucos homens se mantêm firmes quando percebem que estão sendo avaliados de volta. Inclinei levemente a cabeça, o bastante para deixar claro que eu tinha notado.
— Muito bem, senhor Elend… — deixei a caneca na mesa — Vai continuar me estudando como mercadoria ou pretende falar o que quer? Está aqui para me contratar ou precisa de uma poção para amolecer o coração de uma amada ingrata?
Elend riu outra vez.
— Ainda estou decidindo se devo contratá-la ou prendê-la. Talvez, também considere convidá-la para um… encontro em algum castelo escuro e perigoso — respondeu Elend.
O canto da minha boca quase cedeu, mas consegui controlar a surpresa. Humor ajuda, apesar de não me impressionar tanto. Ainda assim, ele subiu alguns pontos na minha lista mental.
No ar, Syllee girou como se o espaço fosse um palco e me lançou um sorriso malicioso.
— Essa tensão entre vocês tá… instigante — disse ela, se abanando com a mão — Talvez, você devesse dar uma chance e ouvir o que ele tem a dizer.
Acompanhei o movimento dela com os olhos e ergui uma sobrancelha. Syllee raramente se empolgava com estranhos, se estava curiosa, havia algo ali que eu ainda não tinha percebido. Voltei a encarar Elend com menos barreiras erguidas.
— Então essa é a Lady Syllee? — Elend perguntou, os olhos se movendo pelo ar numa tentativa clara de seguir o trajeto dela.
— Você consegue vê-la?
— Não completamente — Elend fixou os olhos em mim outra vez — Mas consigo ouvi-la.
— Syl, não seja rude — falei — Apareça para o senhor Elend.
Ela surgiu num redemoinho diante do rosto dele e executou uma reverência calculada para provocar. Elend deu um passo atrás. A reação sincera me agradou mais do que uma pose de firmeza.
— É um prazer conhecê-lo, senhor Elend — declarou Syllee, com doçura — Prometo que sou a parte equilibrada da dupla.
— Isso explica muita coisa — Elend respondeu, repetindo a reverência.
Cruzei os braços e indiquei a cadeira à minha frente com um gesto do queixo.
— Se consegue percebê-la, então tem afinidade com mana — disse eu — Sente-se, senhor Elend.
— Obrigado, Milady — Elend puxou a cadeira — E sim, consigo usar mana para reforçar o corpo.
Toquei a glabela e fechei os olhos por um instante. Poucos ainda dominavam aquilo naquela época, além dos magos.
— Se não se importa, onde aprendeu essa técnica?
— Com o velho Alaric — respondeu Elend.
Abri a boca e a fechei logo depois. Novamente, a surpresa escapou antes que eu pudesse conter.
— Você… foi discípulo dele? Você parece muito novo para tê-lo tido como mestre. Por acaso, é um meio-elfo?
Ele assentiu. Enquanto eu endireitava as costas, o observei outra vez, agora sob outra perspectiva.
— Então diga, como posso ajudar o discípulo do meu velho amigo? — perguntei — Duvido que tenha vindo até aqui só para confirmar como fiz o herói celestial escapar do castelo do Senhor das Sombras.
Dessa vez, Elend não sorriu, na verdade, uniu as sobrancelhas.
— Na realidade, queria saber se a senhora está disponível.
Cruzei as pernas devagar, sustentando o olhar e deixei o silêncio se estender um pouco.
— Depende — falei, com um sorriso de lado — No momento, não tem ninguém esquentando minha cama e estou de folga, então, talvez, eu esteja disponível sim.
O silêncio que veio depois foi curto, mas disse tudo. Percebi no rosto de Elend o ajuste quase invisível, aquela fração de segundo em que entendeu algo diferente do que eu quis dizer e precisou recalcular a rota.
— É uma oferta tentadora — disse Elend, o canto da boca traindo um sorriso — Poderia aceitar de tantas formas, mas as melhores coisas merecem atenção devida e a senhora merece mais do que a minha atenção dividida. Por ora, me refiro a trabalho.
Inclinei a cabeça, como se lamentasse de verdade a confusão e mantive a minha vantagem por mais um instante.
— Que pena — eu disse suspirando e fazendo um biquinho — Já estava considerando a proposta. Faz tempo que a minha cama está vazia. Se bem me lembro… a última vez foi quando o seu mestre passou por ela.
Syllee soltou uma gargalhada ao meu lado e Elend pigarreou antes de dar um sorriso contido.
Apoiei o cotovelo na mesa e deixei o queixo descansar na mão. Havia controle em cada gesto dele, um esforço claro para sustentar neutralidade, mas a tensão aparecia nos detalhes, principalmente, nos olhos se revezando entre mim e Syllee.
— Muito bem, senhor Elend — falei — Que tipo de missão traz um membro da guarda imperial a este fim de mundo?
Elend franziu o cenho.
— É verdade que a senhora consegue matar um lobisomem?
Ergui a caneca e pedi outra antes de responder. Por um instante, lembrei de Alaric. Cento e vinte e cinco anos haviam passado desde a primeira missão ao lado dele, quando também me chamou para caçar um lobisomem.
— Estamos falando de um jovem? — perguntei, pousando a caneca na mesa.
— Não sei dizer — respondeu Elend — Nem tenho certeza de que é um lobisomem, mas houve uma solicitação na guilda dos aventureiros. Um grupo foi enviado e não tivemos resposta desde então.
Assenti, ligando os pontos.
— Então, a guilda chamou a guarda imperial?
— Não de imediato — disse Elend — Primeiro, convocaram um dos bruxos e só depois disso, a solicitação veio para a guarda.
Inclinei um pouco mais a cabeça e mantive os olhos nele.
— E o bruxo?
— Ninguém o viu chegar e nem sair.
Passei o dedo pela borda da caneca e organizei as peças na mente. Nada ali me surpreendia. Ao meu lado, Syllee pairava em silêncio, o que, nela, já era resposta suficiente.
— Quantos aventureiros?
— Cinco ou seis.
Soltei o ar pelo nariz.
— E um bruxo desaparecido… — disse eu — Tenho certeza que é um lobisomem adulto. Provavelmente, fêmea e perto de dar à luz.
— O que te faz pensar isso? — Elend franziu o cenho.
— Lobisomens fêmeas só se fixam em território e caçam nesse ritmo quando estão prenhas. Precisam alimentar a cria que vem. Se ficou, é porque tem motivo para lutar. Uma lobisomem jovem teria simplesmente fugido e buscado uma área menos disputada. Provavelmente, ela está lá com um alpha.
Elend piscou algumas vezes, até que assentiu.
— Então não é apenas uma fera mágica que chegou a uma região remota?
Neguei com a cabeça.
— Não... ela já deve estar lá há meses. Só procurou um ponto mais protegido quando o parto começou a se aproximar.
O peso leve de Syllee pousou no meu ombro. Ela apoiou a mão no próprio queixo e encarou Elend.
— Posso perguntar uma coisa? — disse Syllee.
— O que foi, Lady Syllee?
Ela inclinou a cabeça.
— O seu mestre contou como nos conheceu? Quero dizer… o que estava acontecendo naquela cidade quando ele nos contratou?
Elend levou um segundo, parecendo organizar a memória e então assentiu.
— Ele disse que foi durante uma caçada. Um lugar tomado por lobisomens, a cidade inteira sob o domínio deles.
Syllee confirmou com um movimento lento de cabeça e me lançou um olhar de lado. A lembrança veio sem convite. Balancei a cabeça de leve, afastando aquela memória e voltei a atenção para Elend.
— Quantos vivem nesse lugar? — perguntei.
— Talvez, mil ou duas mil. O último censo foi feito há anos.
Syllee soltou um suspiro curto ao meu lado.
— Zara, precisamos aceitar.
— Eu sei.
— Então, por que ainda resiste? — murmurou Syllee — Você sabe o que acontece quando o instinto de um lobisomem se mistura com desespero.
Elend se ajeitou na cadeira, como se tivesse perdido um trecho essencial da conversa e me encarou.
— Do que Lady Syllee está falando?
Voltei os olhos para ele.
— Quando uma lobisomem dá à luz, a licantropia pode se tornar transmissível. Sangue, saliva, até um arranhão basta. A maldição se espalha como uma praga.
Elend fez uma careta.
— Então podemos ter uma epidemia?
— Podemos — respondi — Em poucas semanas, a região inteira pode ser tomada. Gente comum transformada em bestas incapazes de conter o próprio instinto.
— Diante desse cenário, a senhora pode nos ajudar? — perguntou Elend.
Soltei o ar e o incômodo voltou com o mesmo peso. Uma capa vermelha nesta parte do império não fazia sentido. Missões assim costumavam ir para as capas douradas, o que me dizia que havia mais ali do que um pedido de socorro. Além disso, algo nele não se encaixava.
Ou Elend foi enviado por um motivo específico ou escolheu omitir partes convenientes da história.
— Não sou mais heroína, senhor Elend, e o último imperador que auxiliei está morto há décadas — falei, apontando para a bolsa de couro vazia sobre a mesa — Mas… de quanto estamos falando?
— Vinte moedas de ouro e três barris de vinho — respondeu Elend — A região é conhecida pelos melhores do continente.
Ergui o olhar com mais interesse do que pretendia mostrar.
— Então é em Oakhaven?
Elend assentiu.
— Aceitamos! — disse Syllee antes que eu abrisse a boca.
Soltei o ar pelo nariz e deixei os pensamentos se atropelarem. Vinho. Oakhaven. Alaric. Coisas que preferia manter enterradas naquele solo.
— Tem certeza? — perguntei a Syllee — Depois não reclame do cheiro de cachorro molhado.
— Com vinte moedas de ouro, eu tomo banho todos os dias por anos e ainda compro perfume para você — disse Syllee, rindo — Além disso, você já ia aceitar assim que ouviu o nome da cidade.
Estreitei os olhos para ela e então voltei a Elend.
— Bem, isso é verdade — disse eu — Só espero que não recue no pagamento, senhor Elend.
— A coroa pagará pelos seus serviços, milady. Mas… posso perguntar algo?
Assenti com um gesto curto.
— Por que o nome da cidade a fez mudar de ideia?
Cruzei os braços e deixei o silêncio se estender, medindo com cuidado o que podia expor e o que precisava manter.
— Naquela região, há duas coisas importantes — eu disse.
Syllee ergueu a mão como se pedisse licença, olhando de lado para mim.
— A primeira é a mais relevante — disse Syllee levantando-se e deslizando ao redor de Elend — Lá fica o vinho que Zara adora. Mas a segunda coisa é que fica perto do nosso verdadeiro motivo para vir ao nordeste do império.
Elend riu baixo e fez um gesto breve de concordância.
— Posso saber qual é esse objetivo?
Sustentei o olhar dele sem pressa.
— Por ora, vamos nos concentrar na missão — respondi — O resto é assunto particular, senhor Elend, e vai continuar assim até que você me dê um motivo para confiar em você. Não é porque foi discípulo do Herói Celestial e meu melhor amigo que vou colocar a minha vida nas mãos de um capa vermelha.