— Você pode andar um pouco mais rápido? — eu disse e deixei a mão deslizar pela crina do cavalo.
O animal relinchou e diminuiu a distância até Elend, que se mantinha em silêncio. Desviei o olhar para a estrada de terra vermelha que se estreitava entre as árvores, enquanto as copas fechavam o céu em placas irregulares de luz e o sol passava em lâminas entre os galhos.
— Então… por quanto tempo exatamente você vai fingir que não me vê? — perguntei.
Ele virou a cabeça devagar, um sorriso nos cantos da boca e voltou os olhos para a estrada.
— Eu não estou fingindo, apenas… apreciando o silêncio.
— Hum, então gosta de paz e sossego? — acelerei para chegar ao seu lado — Desejo estranho para um capa vermelha.
Ele soltou uma risada.
— Você, mais do que ninguém, deveria saber que um combatente valoriza a paz, Lady Zara.
— Bem, isso é verdade — eu disse dando de ombros, deixando o sarcasmo vazar — Pelo menos o continente sul é mais tranquilo, mesmo com essas guerras intermináveis entre familiares.
Elend assentiu e prosseguimos lado a lado, só com o barulho das ferraduras no barro pontuando nosso avanço. Silêncio era luxo raro nessa parte do mundo e eu havia aprendido a não desperdiçá-lo com conversas inúteis, mas também a não confiar em quem usava o silência como escudo.
— O que eu não entendo é porque um membro da guarda imperial veio pessoalmente até essa região? — os meus olhos vagaram pelas bromélias presas nos troncos — Não podia ter mandado um dos capas amarelas? O Porto Imperial não anda instável por causa da Guerra dos Bastardos?
— O conflito já acabou há dois meses.
— Há dois meses? — eu disse arregalando os olhos — Então, quer dizer, que temos um novo imperador?
— Sim e desde então, o império está estável, pelo menos até estourar outra guerra entre os Erythar — disse Elend — A notícia ainda não chegou nessa região?
Neguei com a cabeça.
— Estável o bastante para um capa vermelha cruzar rumo ao nordeste atrás de um lobisomem? — deixei a ironia tingir cada sílaba — Isso não parece trabalho destinado a um nobre.
— Eu não sou um nobre.
— Mas é um capa vermelha — observei, percorrendo sua figura com o olhar — Sua postura, seu jeito de falar, tudo em você grita que é um nobre.
Elend ajustou as rédeas com uma mão, ainda com o olhar fixo na estrada.
— A minha vida é um pouco complicada, Lady Zara.
— A vida de Tharion também era complicada e ele vivia como um nômade até descobrir que era o verdadeiro herdeiro do trono — respondi — Então, não acho que a sua vida seja mais complicada que a dele.
— A senhora conheceu o Sir Tharion?
— Uhum, ele ainda era só um moleque sonhando em ser um cavaleiro... — disse eu — Nunca pensei que se tornaria o símbolo do sonho de todo cavaleiro. Até Alaric ficava fascinado toda vez que eu contava alguma história sobre ele.
— Será que Sir Tharion ficaria feliz em saber que finalmente estamos vivendo tempos de paz? — Elend perguntou.
— Assim como a guerra, a paz nunca dura para sempre, ele sabia disso melhor do que qualquer pessoa — dei de ombros — Mas você ainda não me respondeu. A sua missão principal não é proteger o imperador em Porto Imperial?
— É que o novo imperador partiu com a comitiva para o norte.
— Pra o norte? — uni as sobrancelhas — Até onde eu me lembro, a família imperial evita a Grande Floresta há pelo menos noventa anos.
— Você tem uma boa memória, Lady Zara — disse Elend finalmente virando para me olhar — Seria indelicado da minha parte, perguntar quantos anos você tem?
— O suficiente para não me impressionar com mudanças de regimes — dei de ombros de novo — Mas, o que o novo imperador deseja na Grande Floresta?
Elend mordeu o lábio inferior e o queixo se tensionando de forma visível por um instante.
— Não sei ao certo… — murmurou Elend — Mas parece que há um motivo importante para justificar a sua ida após assumir o trono de fogo.
— Só existem dois motivos para o imperador ir naquela região — puxei a rédea para desviar de uma raiz que atravessava a estrada — Ou ele quer montar uma expedição para reconquistar o continente do norte ou os não-nascidos retornaram ao nosso continente.
Elend permaneceu calado, observando a estrada. Eu sorri de lado, deixando um som que era quase risível sair do meu nariz.
— Tudo bem, Elend. Já entendi que você é um cavaleiro leal — disse eu — Os seus superiores confiam em você para manter os segredos do palácio, então tudo bem, não irei fazer seu pescoço ficar em risco.
— Não é sobre confiança, Milady — ele reduziu o trote — É que nem eu sei os detalhes do que está acontecendo.
Virei na direção dele sem largar o caminho de vista. Aquilo, provavelmente, era verdade ou pelo menos uma versão dela que ele acreditava.
— Com o imperador fora, não seria mais sensato manter os capas vermelhas em Porto Imperial? — mantive nosso ritmo, levantando uma sobrancelha — A cidade vira um caos quando a família imperial se ausenta. Já vi isso acontecer mais de uma vez.
— O Porto Imperial está seguro, Lady Zara.
Ele apontou com o queixo para a frente e eu segui o gesto. Oakhaven surgia devagar através da bruma da tarde, como se a cidade fosse se revelando aos poucos.
As casas térreas vieram primeiro, alinhadas ao longo da estrada de paralelepípedos. Algumas eram de taipa, porém, a maioria, de madeira escurecida pela umidade constante. As venezianas permaneciam fechadas, todas elas, mesmo ainda sendo fim de tarde e aquilo parecia esquisito de um jeito difícil de ignorar.
Mais adiante, surgiram alguns edifícios de dois andares. Os sobrados denunciavam o comércio no térreo e a moradia no andar de cima, contudo, o mais curioso era que nenhuma janela mostrava sinal de vida assim como todas as casas até agora.
Podia ser que as pessoas estivessem assustadas pelos ataques recentes dos lobisomens. Ou talvez, fosse outra coisa, algo que eu ainda não tinha percebido.
Mais a frente, visível desde a entrada da cidade, a torre da igreja dominava o ponto mais alto, voltada para a fonte que ocupava o centro da praça.
Foi então quando o sino do relógio soou cinco vezes. O som correu pelas ruas, enquanto o sol descia atrás das casas e mesmo diante do som estridente, avançamos pela estrada.
— Agora falando sério, Elend — inclinei-me na sela em direção a ele, baixando a voz — Se você estiver escondendo algo que vá nos matar, eu vou até o inferno só para te matar de novo.
— Se você for até o inferno por minha causa — respondeu Elend e um sorriso se abrindo devagar naquele rosto perfeitamente esculpido — Espero que não seja só para me matar… Seria um desperdício da sua beleza, Lady Zara.
Comprimi os lábios antes que o riso escapasse. Syllee emergiu do nada e se acomodou no meu ombro, abrindo os braços num alongamento lento.
— A viagem demorou bastante dessa vez, não é? — perguntou ela, esfregando os olhos.
— A estrada estava ruim e mudou muito desde a última vez que passei por ela… acho que umas duzentas ou trezentas árvores novas pelo caminho que eu, definitivamente, não me lembro — virei para observá-la — A sua soneca foi boa?
— Foi maravilhosa — bocejou Syllee — Essa vila parece muito mais “animada” do que no passado, não é?
Deixei escapar um som que era quase um riso, pela ironia de Syllee.
— Parece que estão muito “animados” para o festival da Aurora — respondi, ainda mantendo a ironia de Syllee — Você está sentindo alguma flutuação na mana?
Syllee estreitou os olhos, a cabeça se inclinando para o lado e assentiu.
— Não muito — respondeu Syllee, ajustando a posição no meu ombro — Mas tem algo definitivamente errado por aqui. Só ainda não identifiquei a fonte.
Acelerei o passo do cavalo. Quando alcançamos a praça, vi uma fila de refugiados ocupando o espaço da fonte: um amontoado de idosos, crianças e mulheres, todos sendo atendidos por um pequeno grupo que se movia de um lado para o outro.
No centro da confusão, uma mulher loira se destacava. O vestido azul profundo chamava atenção, à medida que ela trabalhava diante de um panelão fumegante.
Ela segurava uma colher de madeira, enquanto mexia o conteúdo. Ainda assim, havia algo nela que não combinava com aquela tarefa. Era definitivamente uma nobre que parecia muito mais acostumada a ser servida do que a servir.
Guardei aquilo numa pequena anotação mental.
— Essas pessoas são refugiadas? — perguntou Elend.
— Sua guerra pode ter acabado no sul, Elend — meu olhar se fixou na fila — Mas, para eles, aqui no nordeste, ela continua.
A mulher loira disse algo a quem estava ao lado, limpou a mão no avental e então caminhou até nós. O pé esquerdo tocava o chão com cuidado, ao passo que o direito assumia o esforço de avançar. Observei o ritmo desigual por um instante e arquivei aquilo na memória. Ela estava mancando.
No mesmo momento, senti uma leve ondulação na mana, sutil, mas suficiente para provocar uma pequena pontada na têmpora e olhei de soslaio para Syllee que estava franzindo o cenho.
— Sejam bem-vindos a Oakhaven. Que a bênção da deusa Aurora os guie! — disse a desconhecida, parando à nossa frente.
— Que a bênção da deusa Aurora a proteja! — respondeu Elend, levando a mão ao peito.
Os olhos azuis da mulher pousaram em mim. Por um instante, o olhar se desviou para o meu ombro, como se pudesse ver Syllee ali e pareceu processar algo antes de seguir adiante. Então, continuou, deslizando até observar Elend.
— Em que posso ajudar, nobre capa vermelha? — perguntou a desconhecida levantando as pontas da saia em reverência — Não costumamos receber visitas da Coroa sem aviso.
— Estamos em uma missão oficial — disse Elend, tirando um papel da bolsa presa à sela e entregando o envelope à mulher — Este é o documento que autoriza a investigação sobre o desaparecimento de alguns aventureiros e um bruxo.
A desconhecida abriu o envelope, leu o conteúdo, piscou duas vezes antes de assentir.
— Então é sobre isso… — disse ela sustentando o olhar de Elend — Sou Alice Avás. Quando o vi, fiquei me perguntando por que um de vocês viria até uma região isolada como esta.
Desci do cavalo e puxei a rédea para mantê-lo ao meu lado.
— Você é filha do senhor Dante Avás? — deixei a nostalgia escapar pela voz.
— Ele era o meu avô — respondeu Alice, após uma breve pausa.
Expeli o ar pelo nariz quase rindo.
— Aquele moleque vivia pedindo para ser o meu escudeiro. Pelo visto, encontrou alguém disposto a aturá-lo.
Alice me analisou por um instante, e um brilho passou por seus olhos, algo próximo de reconhecimento e alívio. Aquilo ligou um leve sinal de alerta na minha mente.
— A senhora é Lady Zara? — perguntou Alice com um sorriso carinhoso — O meu avô contava muitas histórias sobre você.
Desviei o rosto para a vila, deixando o silêncio ocupar o espaço entre nós.
— E como ele está? — perguntei.
— Morreu há dez anos… no início da guerra — respondeu Alice e o sorriso desapareceu.
— Meus sentimentos… ele era um bom homem — falei, virando o rosto e fechando os olhos por um momento.
Dez anos. Para ela, tempo suficiente para o luto virar cicatriz, no entanto, para mim, pouco mais que ontem. Depois de respirar fundo, olhei para a cidade, procurando brasões ou marcas de afiliação nas construções.
— De que lado vocês estavam? E, se não for um incômodo responder, o seu pai também foi para a guerra?
Alice assentiu, me encarando.
— Estivemos ao lado do Sykes Erythar e… — respondeu Alice — Infelizmente, ele morreu junto do meu avô.
— Então, você é a atual governanta de Oakhaven?
— Sim, Milady.
— Bem, Alice, vamos precisar do seu auxílio na investigação — eu apontei para Elend, que desmontava — O senhor Elend é quem está à frente disso, eu sou apenas o suporte, então se puder nos auxiliar como uma boa Avás, ficarei grata.
— Nesse caso, a senhora aceitaria se hospedar na minha casa durante esse período? — Alice fez uma reverência.
— Desta vez não, Alice. Prefiro a estalagem — respondi — Em investigações como essa, mobilidade é vantagem, logo, entrar e sair sem formalidade evita atrasos. Você entende, não é?
Syllee soltou uma bufada no meu ombro.
— Ainda assim, agradeço a cordialidade — acrescentei.
— Como desejar, Lady Zara.
— Lady Alice, poderia nos explicar sobre os desaparecimentos recentes? — perguntou Elend, posicionando-se ao meu lado — Além dos aventureiros, houve outros casos?
Alice respirou fundo, assentindo.
— Desde que meu pai e meu avô foram para a guerra, muitas pessoas morreram na região — disse Alice, com pesar na voz — Algumas por causa da praga escamosa, outras por ataques de bestas mágicas ou outras doenças.
Comecei a andar em direção à estalagem, deixando que ela nos guiasse. Elend encurtou a passada para acompanhar o meu ritmo, o que me fez franzir o cenho e olhar para os pés dele, mas deixei passar, havia algo mais urgente para se preocupar.
O cheiro que se espalhava pelo beco que estávamos atravessando, um odor que tentava se passar por óleo mas não conseguia me enganar. Troquei um olhar com Syllee, que já fazia uma careta.
— Algum desses casos envolveu ataque de lobisomem? — mantive a voz leve.
Alice indicou o caminho com um gesto discreto quando passamos por uma esquina. O pé esquerdo poupou peso uma vez mais.
— A minha filha foi uma das… vítimas — disse ela e a voz falhou — Aconteceu há um ano, mais ou menos.
Parei. Havia algo no ar daquele beco, uma pressão sutil que subia atrás dos meus olhos como o prenúncio de uma enxaqueca. Tentei expandir minha percepção, mas o que encontrei foi uma massa de mana tão densa que abafava tudo, como um cobertor pesado impedindo qualquer leitura.
Nem os batimentos cardíacos de Alice eu conseguia captar. Olhei para ela, tentando entender como era possível vê-la com tanta clareza e sentir tão pouco de sua presença. Em seguida, encarei Elend e dele eu percebia tudo, até o ritmo exato das batidas do coração.
— A senhora está bem, Lady Zara? — perguntou Alice, virando-se para mim com um olhar carinhoso.
— Estou bem — respondi, retomando o passo — Quantos anos a sua filha tinha?
— Dezessete anos — respondeu Alice, a voz agora quase um sussurro — Ela foi atacada antes de viajar para noivar com o quarto filho do Lord Sacabotte.
Alice tirou uma fotografia do bolso do avental e a estendeu na minha direção. A imagem mostrava uma jovem de cabelos claros e o mesmo olhar da mãe, sorrindo sem pretensão alguma. Observei por um instante e devolvi a foto sem comentar nada.
— Você tem certeza de que foi um lobisomem? — perguntou Elend.
— Sim — respondeu Alice e a mandíbula se contraiu de forma visível — As marcas de garras e a destruição que encontramos na comitiva deixaram claro que era uma besta. Ninguém presenciou o massacre, apenas o que sobrou.
— Quando os ataques voltaram a acontecer? — perguntei.
— Cerca de duas semanas atrás — respondeu Alice, recuperando alguma compostura, conforme retomava a caminhada.
Troquei um olhar com Elend. Um ano inteiro sem ataques e agora a fera voltava à atividade? Só havia uma explicação plausível para esse padrão e nenhuma delas era simples de resolver.
Tentei ampliar a minha audição. A cidade parecia cheia, gente pelas ruas, movimento ao redor, mas algo não encaixava. Não escutava quase nada, nem mesmo o barulho de crianças brincando.
— Durante esse ano não ocorreram outros relatos de ataque de lobisomem? — perguntei.
— Não... Os ataques só retornaram há duas semanas, quando nossos soldados foram até um assentamento a leste da cidade e encontraram a aldeia deserta.
— Quantas pessoas havia lá?
— Cinco famílias, cada uma com seis a sete membros.
— Em torno de trinta e cinco pessoas mortas, então? — Elend perguntou.
— Na verdade, desaparecidas.
— Desaparecidas? — eu uni as sobrancelhas.
— Sim — respondeu Alice, assentindo — Como os corpos não estavam no local, não temos certeza se foram ou não assassinados.
Paramos diante da hospedaria, um prédio de dois andares na esquina do quarteirão, com janelas alinhadas acima de uma porta dupla de madeira que acompanhava toda a extensão da calçada.
— E como vocês têm certeza de que foi um lobisomem? — franzi o cenho — Havia algo que provasse que não era um lobo comum ou outra besta mágica?
— Porque ouvimos um uivo na noite anterior — respondeu Alice — Ficamos preocupados e, por causa disso, enviei um grupo de soldados para cada aldeia vizinha. Eles voltaram dizendo que a aldeia ao leste estava vazia. Só não sei explicar o por que as casas pareciam abandonadas.
Alice abriu a porta e entrou. Eu a segui, deixando que os meus olhos se ajustassem à luz mais fraca do interior.
Caminhamos por um pequeno corredor até pararmos diante da entrada do restaurante. O salão estava vazio. Apenas um ventilador de teto cansado girava acima de nós, fazendo um ruído constante, enquanto empurrava o ar de um lado para outro sem realmente aliviar o calor.
Passei a mão pela testa, limpando o suor. O lugar parecia preparado para receber gente. Ainda assim, não havia ninguém. Nem vozes, nem passos, nem o ranger das tábuas sob peso algum além do nosso.
Syllee deixou meu ombro e passou a sobrevoar minha cabeça. Um som baixo escapou dela, algo entre um rosnado e um silvo. Isso bastou para eu saber que ela estava irritada.
— E como era esse uivo? — perguntei.
Alice parou e os olhos se fecharam por um segundo.
— Lembrava o uivo de um lobo, só que… — Alice respondeu devagar, abrindo os olhos e me encarando — Mais agudo, bem mais agudo. Como se os meus próprios ossos sentissem e meu coração vibrasse com aquele som.
Olhei para Syllee, que repetiu a mesma expressão de desaprovação, e voltei a atenção para Alice.
— Tem certeza de que era mais agudo?
— Sim, Lady Zara. Era definitivamente mais agudo.
— Alice, você se feriu recentemente? — perguntei, deixando o olhar descer até a perna dela.
— Foi só uma torção boba. Me distraí, tropecei na escada e acabei torcendo o pé — o corpo de Alice recuou um pouco — Não foi nada demais.
— Você tem certeza? — insisti — Posso usar a bênção da deusa para lhe curar.
— Não se preocupe, Lady Zara. Eu jamais faria uso de uma magia tão pura para uma coisa tão boba — Alice desviou o rosto — Sou dramática quando sinto dor e isso pode parecer mais grave do que realmente é.
Meus lábios se comprimiram. Ninguém recusa a bênção da deusa sem motivo, a não ser que… aceitá-la doa mais do que a ferida original. Levantei o olhar até Syllee que parecia cada vez mais irritada com a situação.
— Tem certeza? — repeti — Pode não parecer, mas sou uma clériga de alto nível da deusa Aurora.
Alice me encarou de frente e havia algo nos olhos dela que não era culpa, mas era algo próximo.
— Não precisa — respondeu Alice, agora com a voz mais firme — Agradeço a gentileza, Lady Zara.
Ela deu um passo para trás, enquanto ajustava o vestido com as mãos.
— Agora eu preciso ir — continuou Alice, virando o corpo em direção à porta — Se a senhora necessitar da minha ajuda, ficarei na praça central até próximo da meia-noite. Algumas ossadas foram enviadas ao clérigo, caso a senhora deseje investigar.
Alice apressou o passo. Logo a porta se abriu e fechou atrás dela.
— Ela não parecia estar mentindo — comentou Syllee, voltando para o meu ombro.
— Mas também não parecia estar falando a verdade — completei.
Syllee assentiu e voou um pouco mais baixo, pairando perto do meu rosto.
— Então o que é que era verdade e o que era mentira? — perguntou Elend — Você percebeu algo específico, Lady Syllee?
— Não… — respondeu Syllee, com as asas se contraindo — Só senti que o ar ao redor de Alice não parecia totalmente honesto. Ela disse muitas coisas verdadeiras, mas outras… não dava para saber se estava sendo honesta ou não.
— Sem dúvida o motivo pelo qual está mancando é mentira — falei — Mas, quanto ao uivo, aquilo era verdade. Então, ou ela é uma mentirosa muito habilidosa ou acredita no que disse mesmo que seja mentira. Não podemos descartar a possibilidade dela estar com medo o bastante para distorcer os próprios pensamentos sobre o que aconteceu. O que eu sei é que recusar a bênção da deusa me diz que algo muito específico sobre o que está acontecendo nessa cidade.
Syllee levou a ponta dos dedos ao queixo, os olhos desviando para a janela da estalagem.
— Syl — chamei — Preciso que vá à prefeitura e verifique duas coisas. Primeiro, se alguma família da região teve sete filhas e o oitavo filho foi um menino. Segundo, se essa família é ou não da região.
Syllee levou um instante para processar, então assentiu.
— Já volto — disse Syllee — Mas vou querer dois quilos de carne como pagamento.
— Dependendo do que você descobrir, eu penso se você merece.
Syllee sorriu e atravessou a parede como se ela não existisse. Elend se aproximou e parou ao meu lado.
— Por que você pediu, especificamente, essa informação, Lady Zara?
— Preciso saber se é de fato um lobisomem jovem ou se é uma estige — respondi, estreitando os olhos — Alice comentou que o uivo era bem agudo, e lobisomens não costumam uivar assim, o som deles é mais intenso, forte, agressivo, então um uivo tão agudo indica que a fera é uma criatura corrompida pela mana do norte, o que faz isso parecer mais uma estige do que um lobisomem.
— Isso significa que estamos lidando com um servo dos Demônios? — Elend perguntou.
Assenti, fazendo uma careta.
— Temo que essa missão tenha se tornado ainda mais perigosa, senhor Elend.