Marcação Encontrada Deseja continuar de onde parou?

CAPÍTULO 3 — OS DEMÔNIOS DO NORTE

POV: Zara

A silhueta de Alice sumiu entre as casas. Fiquei ali encarando a janela da pousada por um tempo, esperando meio que [Conteúdo protegido por direitos autorais] ela reaparecesse, até que virei e fiz um sinal com a cabeça para Elend, indicando que me seguisse para sairmos dali.

Os lampiões agora acesos espalhavam uma aura esquisita pela cidade, a luz deles se misturando com a da lua de um jeito que fez [Conteúdo protegido por direitos autorais] os pelos da minha nuca se arrepiarem. Conforme avançávamos para o leste, notei a ausência do cheiro típico de resina que eu associava a Oakhaven.

Levantei uma sobrancelha, mas ignorei por enquanto. A cidade não era mais a [Conteúdo protegido por direitos autorais] mesma e nem seus moradores, então fazia sentido que o ar também tivesse mudado.

As janelas fechadas e a ausência de vozes confirmavam isso e a certeza só crescia, à medida que eu observava tudo ao meu [Conteúdo protegido por direitos autorais] redor: Alice escondia alguma coisa. Precisava de uma evidência antes de tratá-la como empecilho, era o mínimo que devia ao avô da garota.

A estrada durou uns quarenta minutos antes de virar trilha de terra. Jequitibás e imbuias fechavam os dois lados e eu desviava [Conteúdo protegido por direitos autorais] dos galhos baixos a cada poucos passos, à medida que a lua subia o bastante para projetar sombras compridas entre os troncos.

O que exatamente eu esperava encontrar? Não [Conteúdo protegido por direitos autorais] fazia ideia, mas preferia caminhar a ficar parada.

— Você já tem alguma ideia do que estamos procurando? — Elend [Conteúdo protegido por direitos autorais] perguntou — Por que exatamente estamos indo para a aldeia do leste?

— Não quero acreditar que os demônios voltaram para cá bem debaixo do meu nariz — desviei de outro galho, sentindo a aspereza da casca roçando meu ombro — Mas se voltaram, vou encontrar sinal [Conteúdo protegido por direitos autorais] de mana corrompida. Já senti um pouco disso na cidade, então preciso sair e ver se aquilo está apenas lá ou espalhado pela região. Se foi um lobisomem ou não… vou saber quando estiver no local.

Elend ficou em silêncio. Olhei por cima [Conteúdo protegido por direitos autorais] do ombro e o encontrei encarando minhas costas.

— Você já sabia disso, não é? — a pergunta saiu mais como constatação — [Conteúdo protegido por direitos autorais] Foi por isso que veio atrás de mim, enquanto o imperador foi para a Grande Floresta.

Elend não me respondeu, mas também não tentou [Conteúdo protegido por direitos autorais] negar e aquilo me fez soltar um riso.

Voltei a olhar para a trilha, a irritação subindo devagar até o ponto em [Conteúdo protegido por direitos autorais] que não consegui mais me manter calada. Ele realmente achou que eu não notaria?

— “Demônios do norte…” — repeti as palavras dele de forma irônica — Um jeito curioso de renomear os não-nascidos. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Se eu tivesse que apostar, diria que você foi até mim pra sondar se minha barreira ao norte ainda está funcionando.

— Existe alguma [Conteúdo protegido por direitos autorais] possibilidade de não estar?

Olhei por cima do ombro e [Conteúdo protegido por direitos autorais] ele ergueu os olhos, encontrando os meus.

— Tá vendo, eu sabia… Algumas das barreiras e selos que usei ainda vão durar bastante tempo, pelo menos até os seus netos [Conteúdo protegido por direitos autorais] terem a sua idade — respondi com um meio-sorriso — Outras já estão perto de se romper, mas eu saberei quando isso acontecer.

Elend mordeu o lábio e o vento da clareira agitou [Conteúdo protegido por direitos autorais] o cabelo dele. Parei de repente, obrigando-o a parar também.

— Você está muito calado desde que saímos da taberna em Abateueba, senhor Elend — Apoiei o peso [Conteúdo protegido por direitos autorais] num pé só — Se queria manter seu segredo e evitar que eu desconfiasse, está fazendo um péssimo trabalho.

— Lady Zara... — Ele levantou os olhos, mas logo os baixou — Você acha que… [Conteúdo protegido por direitos autorais] os demônios podem estar fazendo incursões para libertar os generais que a senhora selou pelo continente?

Respirei fundo e ergui o olhar para a lua. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Era exatamente o tipo de coisa que eles fariam.

— Então, quer dizer que vocês já sabem [Conteúdo protegido por direitos autorais] que eles desceram do norte de alguma forma?

Elend continuou encarando o chão. Suspirei e [Conteúdo protegido por direitos autorais] caminhei até um tronco próximo, recostando-me nele.

— Você não pode me dizer isso, eu sei... — Cruzei os braços — Mas Syl e eu já percebemos alguns sinais. Cada vez mais feras aparecem em várias regiões dos vinte e seis [Conteúdo protegido por direitos autorais] reinos, e nunca tive tanto trabalho, nem tanta gente querendo me contratar. Isso me fez perceber que as coisas estão ficando estranhas. Então, não se preocupe, você não vai perder a cabeça por me contar.

O silêncio dele já dizia o suficiente. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Soltei um som pelo nariz, quase um riso.

— O que ainda não entendi é por que você não me diz o motivo de ter vindo — Meu olhar desceu até o cinto [Conteúdo protegido por direitos autorais] dele — Isso não parece uma missão que o imperador daria a uma capa vermelha, ainda mais a um que usa símbolo de gongo dourado.

Fazia tempo que eu não via um gongo dourado. Aquela pequena peça de metal me indicava que Elend ocupava a patente mais alta [Conteúdo protegido por direitos autorais] entre as capas vermelhas, o que significava que ele podia comandar um esquadrão inteiro e até dar ordens a alguns nobres abaixo dos marqueses.

Ainda assim estava ali, sozinho, me seguindo por uma trilha [Conteúdo protegido por direitos autorais] escura, sem nenhum soldado, o que tornava tudo mais curioso.

— Não fui enviado pelo imperador — Elend ergueu a cabeça — Estou [Conteúdo protegido por direitos autorais] cumprindo ordens dele, é claro, mas… não estou aqui porque ele me mandou.

Estreitei os olhos.

— Só existe uma outra pessoa que pode comandar os capas [Conteúdo protegido por direitos autorais] vermelhas e ela, definitivamente, não pediria que você viesse atrás de mim.

— Por que a senhora continua viajando? — A voz dele carregava uma tom de curiosidade — Muitas histórias inventam motivos e inverdades sobre o que aconteceu no norte, [Conteúdo protegido por direitos autorais] mas a grande maioria da população é grata pelo que a senhora fez. Então por que nunca aceitou fazer parte deste império? Por que prefere continuar como uma andarilha?

— Elend, você sabe qual é a [Conteúdo protegido por direitos autorais] diferença real entre um demônio e um humano?

Piscando, Elend claramente parecia surpreso e [Conteúdo protegido por direitos autorais] pego desprevenido pela mudança brusca de assunto.

— Os demônios não são exatamente bestas mágicas, porque ainda são seres sencientes e racionais [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Elend deu de ombros — Mas também não se encaixam como humanos por motivos óbvios.

— Na verdade, a diferença não é tão grande quanto parece. Além da aparência bizarra que eles têm… — Descruzei os braços devagar, olhando para a lua — Os demônios evoluem rápido e, assim como os humanos, é impossível [Conteúdo protegido por direitos autorais] saber exatamente o que estão planejando. Mas, se quisermos encontrar uma distinção real, ela está no fato de que os humanos são medrosos, mesquinhos e irracionais, porque o amor é ao mesmo tempo sua maior força e sua maior perdição.

Fiz uma pausa antes de [Conteúdo protegido por direitos autorais] voltar o olhar para ele.

— Os demônios se alimentam apenas da ganância e da inveja. Eles não passam de uma casca fria que só busca sobreviver, dominar e destruir — Inclinei [Conteúdo protegido por direitos autorais] levemente a cabeça — Mas, pensando bem, isso não é tão diferente assim dos humanos, não acha? Quantos lordes e nobres você conhece que são exatamente assim?

— Isso é bem diferente [Conteúdo protegido por direitos autorais] do que Lady Aerin diz.

— Sim — Concordei com a cabeça — Para a minha irmã, os demônios [Conteúdo protegido por direitos autorais] devem ser eliminados a qualquer custo, mesmo que isso signifique… destruir metade do continente.

Deixei o silêncio pairar por um [Conteúdo protegido por direitos autorais] momento antes de voltar a encará-lo.

— Pelo menos agora sei que [Conteúdo protegido por direitos autorais] você foi de fato enviado por ela.

O estremecimento foi sutil, mas eu notei. Elend pareceu perceber que eu tinha usado aquela conversa toda [Conteúdo protegido por direitos autorais] para fazê-lo confessar, quase sem querer que Aerin estava por trás daquilo. Pelo menos, ele era alguém sagaz.

Deixei o sorriso malicioso surgir, à medida que voltava a olhar para a [Conteúdo protegido por direitos autorais] lua e ele ficou em silêncio por um instante, como se reorganizasse os pensamentos.

— Então foi por isso… — Elend murmurou, pensativo, o olhar distante — Eu sempre me perguntei por que aquela barreira enorme ao norte foi construída… A senhora [Conteúdo protegido por direitos autorais] não queria que as pessoas inocentes que ainda vivem lá fossem mortas pela sua magia… Então, a forma que a senhora encontrou de protegê-las foi isolar o continente.

Chutei uma pedra e ela rolou [Conteúdo protegido por direitos autorais] pela estrada até bater num tronco caído.

— Você realmente acha que sou tão poderosa quanto [Conteúdo protegido por direitos autorais] Aerin e que seria capaz de vencer aquela guerra?

Elend assentiu e aquilo foi suficiente [Conteúdo protegido por direitos autorais] para eu rir de forma irônica.

— As magias ofensivas não eram tão fortes há cento e vinte [Conteúdo protegido por direitos autorais] anos — Levantei a mão devagar e invoquei uma rajada suave de vento.

A mana queimou minhas veias e senti meus dedos formigarem, os canais ainda muito finos por conta do rebote da magia de selamento [Conteúdo protegido por direitos autorais] que usei no continente norte. Algumas pétalas de rosa surgiram dançando entre nós e Elend estendeu a palma, enquanto uma delas pousava ali.

— Até cerca de quinhentos anos atrás, a magia não era usada para ataques — Observei a rajada de pétalas desaparecer — Minha irmã tentava convencer nossa mestra a [Conteúdo protegido por direitos autorais] permitir magias ofensivas contra os demônios, mas quando Aerin assumiu o lugar dela e encerrou a era de Elsie, a magia passou a ser pensada como instrumento de guerra.

Desci o olhar para [Conteúdo protegido por direitos autorais] Elend, sorrindo de forma cansada.

— Então, a senhora realmente não [Conteúdo protegido por direitos autorais] conseguiria destruir aqueles generais? — ele perguntou.

— Naquela época, eu ainda não sabia muito bem como usá-las — Respirei fundo, pensativa — Mas, sendo sincera, é curioso [Conteúdo protegido por direitos autorais] como o que hoje chamam de magia básica de ataque nasceu das mãos de um dos generais do Senhor das sombras.

Frustrada, levantei os olhos para [Conteúdo protegido por direitos autorais] a lua e estalei a língua.

— Em poucas décadas, os humanos aprenderam exatamente como os demônios usavam a mana — Minha voz tremeu, quase se tornando um sussurro — Depois do selamento [Conteúdo protegido por direitos autorais] do norte, com todo aquele sangue e sacrifício, pensamos que viveríamos finalmente na Era da Paz. Eu acreditei. Acreditei com todas as forças que ainda me restavam.

— Mas outras guerras surgiram só que entre humanos… — Elend completou — Então todas as histórias sobre a senhora [Conteúdo protegido por direitos autorais] ser culpada, na verdade, é só porque a senhora se recusou a ser um instrumento das guerras que se sucederam?

Assenti.

— Foram tantos imperadores que tentaram me obrigar a ser sua maga pessoal e concubina que nem me lembro mais quem começou — estreitei os olhos [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Quando a minha irmã percebeu o erro já era tarde demais e proibiu os magos da Associação de participarem das guerras entre os reinos humanos.

Elend sustentou meu olhar por um longo momento e vi o [Conteúdo protegido por direitos autorais] exato instante em que algo dentro dele fez tudo se encaixar.

— Então é por isso que a senhora viaja… sozinha — ele murmurou — Está protegendo o império de si mesma e evitando entrar em [Conteúdo protegido por direitos autorais] jogos palacianos, como Lady Aerin. Enquanto, ela protege o império na corte, você protege viajando e o meu mestre treinava os cavaleiros das capas vermelhas.

O sorriso que surgiu no meu rosto foi genuíno. Agora eu entendia por que a minha irmã confiava nele. Inclinei levemente [Conteúdo protegido por direitos autorais] a cabeça, mantendo o olhar fixo nele e foi então que seus olhos percorreram meu rosto, demorando-se um instante nos meus lábios.

Deixei o sorriso se tornar malicioso antes de [Conteúdo protegido por direitos autorais] indicar o caminho com a cabeça para continuarmos.

O silêncio foi a única resposta honesta que eu podia dar e Elend pareceu entender. A trilha foi se estreitando até que as copas [Conteúdo protegido por direitos autorais] dos jequitibás quase se tocavam acima das nossas cabeças e quando a vegetação abriu, o vilarejo estava lá ou o que havia sobrado dele.

As casas formavam uma fileira ao longo de uma rua sem nome, portas entreabertas e [Conteúdo protegido por direitos autorais] cercas inclinadas. O mato já havia tomado os vãos onde antes devia existir alguns quintais.

Parei no meio da rua principal e examinei o chão antes de olhar as casas. O barro seco guardava pelo menos [Conteúdo protegido por direitos autorais] cem passadas em fileiras, todas apontando para o norte, junto com marcas de roda de charrete e duas trilhas mais fundas.

Expandi minha percepção, mas não notei nenhuma flutuação estranha, nem mesmo qualquer [Conteúdo protegido por direitos autorais] sinal de desconforto ou vertigem que indicasse mana corrompida. Estalei a língua, frustrada.

Fui até a primeira casa e empurrei a porta com o pé. Dentro, a mesa tinha dois pratos postos com colheres alinhadas e a [Conteúdo protegido por direitos autorais] sopa incrustada nas bordas das tigelas. Percorri a sala, a cozinha e os quartos antes de chegar à porta do subsolo, que estava aberta.

Os ferrolhos estavam intactos. Por que não usaram os bunkers? Franzi o cenho, tentando encontrar qualquer marca de ataque [Conteúdo protegido por direitos autorais] de lobisomens, mas tudo ali parecia um lugar de onde as pessoas simplesmente desapareceram, exatamente como Alice havia dito.

— Isso realmente não parece um local que foi atacado — Elend disse atrás de mim [Conteúdo protegido por direitos autorais] — As marcas lá fora mostram que os soldados estiveram aqui com uma charrete e três carroças.

— Sim... — Assenti — Se os moradores tivessem escutado uivos, teriam reunido [Conteúdo protegido por direitos autorais] as famílias nos bunkers, mas a porta está aberta e os ferrolhos intactos.

Elend se aproximou, olhou para [Conteúdo protegido por direitos autorais] dentro e voltou a me encarar.

— Então será que saíram por vontade própria? — Ele ergueu a sobrancelha — Ou foram [Conteúdo protegido por direitos autorais] deslocados para um lugar seguro e é por isso que Lady Alice não encontrou ninguém aqui?

Dei de ombros e saímos da casa. Dei a volta pela construção do lado, examinando as marcas com [Conteúdo protegido por direitos autorais] mais calma. Os rastros se aprofundavam numa direção única, todos convergindo para o mesmo ponto, além da vila.

— Temos duas [Conteúdo protegido por direitos autorais] possibilidades — eu disse.

— A primeira pode estar relacionada à mentira que Lady Syllee [Conteúdo protegido por direitos autorais] detectou na conversa com Alice? — Elend perguntou, antecipando o meu raciocínio.

Assenti. Gostava de pessoas inteligentes e Elend parecia ter algo [Conteúdo protegido por direitos autorais] funcionando na cabeça, além de músculos e aquele rostinho bonito.

— Você sabe qual é [Conteúdo protegido por direitos autorais] a segunda? — eu perguntei.

Ele pareceu tentar encontrar a resposta no [Conteúdo protegido por direitos autorais] meu rosto, desistiu e negou com a cabeça.

— As pessoas do nordeste sabem exatamente o que fazer nesse tipo de situação — Ajoelhei-me para tocar uma das marcas de roda — [Conteúdo protegido por direitos autorais] Alguém usou isso para levar todo mundo para outro lugar. Se não foi Alice, foi alguém com poder suficiente para fazer os plebeus obedecerem.

— Um nobre ou um cavaleiro? [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Elend pareceu perguntar para si mesmo.

— Quem quer que seja, usou o [Conteúdo protegido por direitos autorais] uivo para forçar essas pessoas a seguir ordens.

— Mas então o [Conteúdo protegido por direitos autorais] que exatamente está acontecendo aqui?

— Estamos numa encruzilhada... literalmente — Minhas sobrancelhas se uniram — [Conteúdo protegido por direitos autorais] A primeira possibilidade é que Alice não é quem diz ser.

— Um demônio [Conteúdo protegido por direitos autorais] disfarçado? — perguntou Elend.

— Era uma possibilidade, mas Syl não disse [Conteúdo protegido por direitos autorais] nada, então tenho quase certeza que não é.

— Então ela [Conteúdo protegido por direitos autorais] é o quê?

— A Alice não é exatamente uma humana, mas algum tipo de criatura... — Passei a mão sobre uma das marcas mais fundas, sentindo a [Conteúdo protegido por direitos autorais] textura da terra compactada — Quando usei minha percepção, não escutei o coração dela, então… ou ela está morta ou não tem um corpo físico.

Desviei o olhar para Elend que permanecia [Conteúdo protegido por direitos autorais] em silêncio com uma das mãos no queixo.

— Então é ela quem está [Conteúdo protegido por direitos autorais] controlando a criatura? — ele murmurou

— Não… — levantei-me e sacudi a terra dos dedos — Quem uivou foi uma estige, um servo de demônio. Não tem como ele ser controlado por um monstro de nível baixo, isso se Alice [Conteúdo protegido por direitos autorais] for mesmo algum tipo de morta-viva. Pela lógica, deve haver um demônio em algum lugar por aqui ou então a criatura está sendo controlada de outra forma. Ainda assim… tem algo que não faz sentido…

— Por que Lady Alice enviou a solicitação para a guilda dos aventureiros? — Elend completou antes que eu terminasse — A [Conteúdo protegido por direitos autorais] carta de solicitação de auxílio tinha o selo dos Avás, mas por que ela fingiu que não entendeu por que eu estava aqui?

Assenti.

— Acredito que ela achou que ia [Conteúdo protegido por direitos autorais] demorar até a coroa autorizar uma investigação formal.

Elend estreitou os olhos, examinou as marcas no [Conteúdo protegido por direitos autorais] chão novamente e depois voltou a me encarar.

— Sendo assim, [Conteúdo protegido por direitos autorais] o que vamos fazer?

— Precisamos conversar com o clérigo — [Conteúdo protegido por direitos autorais] eu disse, já caminhando de volta para Oakhaven.

— Não deveríamos ir atrás de Alice [Conteúdo protegido por direitos autorais] e descobrir se ela é um monstro?

— Não — eu disse e dei um suspiro curto — Se ela é um monstro e não demonstrou sede de sangue, é porque quer que [Conteúdo protegido por direitos autorais] a gente descubra o que está acontecendo aqui. Vamos seguir as pistas que ela deixou e fazer o que ela quer, seja lá o que ela for.

Elend processou a informação em silêncio. Olhei para ele por cima do ombro e seus olhos foram [Conteúdo protegido por direitos autorais] do meu rosto até a torre do relógio, visível dali, marcando oito horas da noite, então ele assentiu.

— Você quer investigar as [Conteúdo protegido por direitos autorais] ossadas que estão no necrotério, então?

— Sim — Acelerei a passada — Se o clérigo não [Conteúdo protegido por direitos autorais] for a estige, ele ainda deve ter o que sobrou das vítimas.

— Isso foi ironia ou um comentário de [Conteúdo protegido por direitos autorais] pura experiência? — perguntou Elend com o cenho franzido.

— Da última vez que cacei uma estige, ela estava literalmente rezando para a deusa Aurora — indiquei [Conteúdo protegido por direitos autorais] o caminho de volta com a cabeça e seguimos — O devoto mais sincero e… faminto que já vi.

Elend riu e eu [Conteúdo protegido por direitos autorais] não consegui segurar o sorriso.

 

Retornamos a Oakhaven quando o relógio da torre marcava oito e quarenta. A cidade estava ainda mais silenciosa e as poucas pessoas [Conteúdo protegido por direitos autorais] que estavam na rua viravam o rosto na nossa direção antes de desviar ao encontrar os meus olhos. Medo ou reconhecimento? Difícil dizer.

— Devo dizer que a reação das pessoas ao te olhar é bem mais… peculiar do [Conteúdo protegido por direitos autorais] que o meu mestre descrevia — Elend comentou, ajustando o passo para ficar ao meu lado.

— Você percebeu algo diferente em como [Conteúdo protegido por direitos autorais] eles estão nos olhando? — perguntei de soslaio.

— Parecem assustados e aliviados ao mesmo tempo — [Conteúdo protegido por direitos autorais] Elend franziu o cenho — É algo muito esquisito.

— Talvez, não saibam exatamente o que está acontecendo aqui, mas sabem que algo está errado — Passei os olhos pelas janelas fechadas da rua [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Gente assustada sempre procura duas coisas: alguém para culpar ou alguém para salvar a situação. Às vezes, até as duas coisas na mesma pessoa.

Voltei a olhar para Elend, que mantinha meu ritmo sem esforço e, por um [Conteúdo protegido por direitos autorais] instante, ele me lembrou Alaric, mas afastei o pensamento antes que fosse longe demais.

— Seu mestre te treinou bem... — [Conteúdo protegido por direitos autorais] Cruzei os braços, olhando para as pernas dele.

Elend primeiro olhou para os próprios [Conteúdo protegido por direitos autorais] pés, depois para mim, claramente surpreso.

— Você percebeu?

— É claro que percebi. Desde que chegamos você mantém o ritmo das passadas igual [Conteúdo protegido por direitos autorais] ao meu — Apontei para os pés dele — Deve ter sido um treino infernal.

— E foi. Ele treinou todos os capas vermelhas da minha geração para que, quando te encontrássemos, pudéssemos ser úteis — [Conteúdo protegido por direitos autorais] Elend sorriu de leve — Mas, confesso que, desta vez te encontrei por coincidência… uma coincidência pela qual eu agradeço aos deuses.

— Por quê?

— Sempre ouvi histórias sobre a bruxa do réquiem — Elend pareceu pensar por um instante [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Do mestre, mas também… de outras pessoas. Na capital existem algumas lendas urbanas sobre você.

— Que tipo de lendas urbanas? — Franzi o cenho [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Faz um século que não vou a Porto Imperial.

— Algumas dizem que você aparece para puxar o pé de crianças malcriadas que não obedecem aos pais. Outras, que você surge se alguém disser seu [Conteúdo protegido por direitos autorais] nome três vezes em frente a um espelho. E ainda que, se alguém quisesse te fazer um pedido, bastava deixar comida na esquina de uma encruzilhada.

Ergui uma sobrancelha.

— Se fosse Syl, talvez, mas eu… eu nem pensa. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Mas alguém realmente acha que apareço se deixarem comida numa encruzilhada?

Elend riu.

— Só essa parte [Conteúdo protegido por direitos autorais] chamou a sua atenção?

Dei de ombros.

— Por situações bem… diferentes, já [Conteúdo protegido por direitos autorais] aconteceu de essas outras duas serem verdade.

— O meu [Conteúdo protegido por direitos autorais] mestre também dizia isso.

— E o que [Conteúdo protegido por direitos autorais] mais Alaric falava de mim?

— Ele não falava de você como uma lenda — Elend ajustou o passo — Dizia que o que o você fez no norte foi a única forma do continente [Conteúdo protegido por direitos autorais] sobreviver. Que sempre gostou de pregar travessuras, de dormir e, principalmente, de beber. E que amava ainda mais quando encontrava alguém para dividir a vida, mesmo que fosse por pouco tempo.

Desviei o olhar para a estrada, tentando segurar [Conteúdo protegido por direitos autorais] o riso. Alaric sempre foi estranho dessa forma.

— Então, quer dizer que ele enfeitou tanto o que eu fiz para os outros, mas [Conteúdo protegido por direitos autorais] nunca teve coragem de se declarar para mim? Só o Alaric mesmo… — Senti os lábios sorrirem.

— O meu mestre também dizia que devia a vida dele à senhora e se sentia culpado por tudo — Elend desviou de uma poça — Ele nunca me contou o [Conteúdo protegido por direitos autorais] que de fato aconteceu no norte, mas dizia que não era merecedor de estar ao seu lado. Então, desde sempre, eu quis conhecer a famosa Lady Zara, a filha da deusa.

— Então você é apaixonado por essa versão que o seu mestre criou de mim? [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Inclinei levemente a cabeça com um meio-sorriso desafiador — A de heroína divina e perfeita?

Elend sustentou meu olhar por um instante, um sorriso lento [Conteúdo protegido por direitos autorais] curvando os lábios, enquanto se inclinava um pouco na minha direção.

— Apaixonado pela ilusão dele? — Ele ergueu a sobrancelha — Não, Lady Zara. O que me atrai é saber que a mulher que marcou um homem como o meu mestre é, na verdade, uma divindade e que ele teve [Conteúdo protegido por direitos autorais] o azar de conhecer apenas uma entre as muitas de suas faces. Para falar a verdade, gosto mais da sua fase atual: uma mercenária cínica e sem vergonha que aceita quase todo tipo de trabalho para alimentar a Lady Syllee.

Fiquei sem resposta por um [Conteúdo protegido por direitos autorais] segundo e estalei a língua.

— Você é tão presunçoso quanto ele, só que com… bem menos pudor — Mordi o lábio [Conteúdo protegido por direitos autorais] inferior por um instante — Está mesmo querendo que eu te convide para algum lugar mais reservado?

Elend não desviou o olhar, pelo [Conteúdo protegido por direitos autorais] contrário, sustentou o meu com mais intensidade.

— Bem, Lady Zara, quem [Conteúdo protegido por direitos autorais] decide isso não sou eu.

Soltei um riso [Conteúdo protegido por direitos autorais] baixo, balançando a cabeça.

— Não me olhe assim. Já vou avisando… não sou deusa nenhuma, então não faça como seu mestre e não crie uma versão idealizada de mim — Suspirei, afastando [Conteúdo protegido por direitos autorais] uma mecha de cabelo do rosto — Eu só ajudei o Alaric, porque ele me promete que o imperador da época me daria isenção de impostos e um salário vitalício.

Elend arqueou uma sobrancelha.

— Então foi um acordo?

— Exatamente — Dei de ombros — Resolvi [Conteúdo protegido por direitos autorais] um problema dele e Alaric resolveu alguns dos meus.

Elend deu um [Conteúdo protegido por direitos autorais] passo sutil mais perto.

— A senhora ainda [Conteúdo protegido por direitos autorais] tem esses benefícios todos?

— Tenho… — Inclinei a cabeça, ainda encarando o olhar dele — Só que o que o imperador me prometeu naquela época não paga mais nada [Conteúdo protegido por direitos autorais] hoje em dia. Esqueci de pedir que o valor fosse reajustado com o passar dos anos, então tenho que aceitar algumas missões para complementar as despesas básicas.

Elend riu de novo, com [Conteúdo protegido por direitos autorais] a mesma facilidade de antes.

 

 

 

 

CAPÍTULO 4

A Reação de [Conteúdo protegido por direitos autorais] Zara ao Clérigo

Problema: Zara demora para perceber que o clérigo é um fantasma (ou algo semelhante). Ela nota a falta de batimentos cardíacos, mas só percebe a verdadeira condição dele quando tenta "lê-lo de verdade". A questão é: ela já havia notado a [Conteúdo protegido por direitos autorais] falta de batimentos e a ausência da bênção da deusa nele. A dedução de que ele é um morto-vivo poderia ter vindo mais cedo, fazendo com que a revelação no porão parecesse um pouco atrasada apenas para criar um momento de tensão.

Solução: Isso não é um furo grave, mas um ponto de suavização. Para tornar a percepção de Zara mais aguçada, você pode adicionar uma linha de pensamento [Conteúdo protegido por direitos autorais] quando ela nota a falta de batimentos: "Algo estava errado, mas a fadiga e a pressa a impediram de juntar as peças naquele momento." Assim, justifica-se a demora.

 

A Igreja de Aurora surgiu no fim da viela com suas colunas [Conteúdo protegido por direitos autorais] em espiral enquadrando o portal, a pedra mais desgastada do que eu lembrava.

Ergui o olhar para a estátua da deusa no alto da fachada e a saudade apertou antes que eu pudesse evitar. Minha mente logo foi invadida [Conteúdo protegido por direitos autorais] por aquela memória específica: minha mãe de pé diante de mim com a mão estendida, permitindo que eu acessasse a magia divina para proteger aquele planeta.

Fechei os punhos e bati duas vezes na porta. Atrás da [Conteúdo protegido por direitos autorais] igreja, o relógio da torre começou a marcar nove horas da noite.

Quem abriu a porta era um homem de batina escura com o brasão do sol [Conteúdo protegido por direitos autorais] nascente bordado no peito e cabelos grisalhos num rosto que aparentava pouco mais de quarenta anos.

Jovem demais para me reconhecer de memória. Isso poderia virar [Conteúdo protegido por direitos autorais] um problema se ele fosse apenas mais um clérigo burocrático.

— É tarde. Em que [Conteúdo protegido por direitos autorais] posso ajudá-los? — ele perguntou.

Tirei do bolso o colar com o símbolo da coroa ao redor do sol e estendi na direção dele. O pingente brilhou entre verde [Conteúdo protegido por direitos autorais] e amarelo-vivo, e vi os olhos do clérigo descerem para o objeto antes de subirem de volta ao meu rosto com os ombros levemente endireitados.

Sorri de lado ao notar que [Conteúdo protegido por direitos autorais] ele sabia o que era aquilo.

— Em que [Conteúdo protegido por direitos autorais] posso ajudar, Lady Zara?

— Vocês estão com algumas ossadas [Conteúdo protegido por direitos autorais] que foram atacadas por um lobisomem?

— Sim.

— Posso vê-las?

Ele não abriu a porta imediatamente. Os olhos voltaram [Conteúdo protegido por direitos autorais] ao pingente, depois subiram para mim, antes de assentir.

Ao mesmo tempo, captei uma leve ondulação de mana, sutil o bastante para passar despercebida. Tentei me [Conteúdo protegido por direitos autorais] concentrar naquela sensação, mas, assim como Alice, não fui capaz de captar nenhum batimento cardíaco no clérigo.

Minhas sobrancelhas se uniram. Tinha algo errado com essa [Conteúdo protegido por direitos autorais] cidade, e eu ainda não havia entendido o quê.

— Não posso negar um pedido da filha [Conteúdo protegido por direitos autorais] da deusa — disse o clérigo, abrindo a porta.

— Então ainda existem pessoas que [Conteúdo protegido por direitos autorais] se lembram do que esse pingente significa?

— A sua santidade Hakan nos instruiu a reconhece-la desde que entramos na [Conteúdo protegido por direitos autorais] escola da deusa — respondeu ele, indicando com a mão que o seguíssemos.

Então Hakan e Alaric estavam [Conteúdo protegido por direitos autorais] treinando seus pupilos para me ajudarem?

Desviei o olhar para Elend, que apenas me encarou. Dei de ombros e segui o clérigo. Contornamos o altar, ele logo à nossa frente. Uma abertura [Conteúdo protegido por direitos autorais] estreita se escondia na parede, revelando uma escada de pedra em espiral que descia mais fundo a cada volta até o ar ficar pesado e frio.

Quando alcançamos o último degrau, minha respiração saiu em pequenas nuvens gélidas. O corredor de [Conteúdo protegido por direitos autorais] pedra se estendia à frente, e no fim dele uma enorme porta de ferro nos aguardava.

Me aproximei e reparei nos símbolos gravados na verga: brasões talhados na pedra, um de magia de gelo [Conteúdo protegido por direitos autorais] e outro de sol nascente, marcas de contenção usadas para impedir que espíritos sombrios encontrassem abrigo em corpos inertes.

Enquanto avançávamos, mantive os olhos no clérigo. Um homem com acesso à bênção da [Conteúdo protegido por direitos autorais] deusa deveria ser puro, não deveria? Então por que eu não conseguia senti-la nele?

— Você é um especialista [Conteúdo protegido por direitos autorais] em magias de contenção? — perguntei.

Ele assentiu e abriu a porta após fazer um sinal com a mão, deixando a mana que [Conteúdo protegido por direitos autorais] bloqueava aquela passagem oscilar antes de ceder. Com um leve movimento de cabeça, indicou que entrássemos primeiro.

Logo avistei cinco ossadas dispostas sobre bancadas de pedra, cada uma separada das outras. O clérigo permaneceu junto à parede, as mãos cruzadas [Conteúdo protegido por direitos autorais] atrás do corpo, o olhar fixo no chão. Aquele detalhe específico ficou preso na minha mente enquanto pegava a lamparina da mesa lateral.

Elend seguiu direto para a bancada do lado oposto, sem que eu precisasse dizer nada. Havia algo [Conteúdo protegido por direitos autorais] eficiente naquilo, nesse modo dele de ler o espaço e ocupar exatamente onde era necessário sem nenhuma instrução.

Segurei o fêmur da primeira ossada, pesei-o na mão e o virei de um lado para o outro perto da [Conteúdo protegido por direitos autorais] chama. Limpo, sem fissuras, sem marcas de compressão, sem o desgaste que aparece quando uma besta arrasta um corpo pelo chão.

— Os ossos foram encontrados assim, limpos? [Conteúdo protegido por direitos autorais] — perguntei, sem tirar os olhos do osso.

— Sim — [Conteúdo protegido por direitos autorais] disse o clérigo.

— Todos pertenciam exatamente ao mesmo [Conteúdo protegido por direitos autorais] corpo ou estavam misturados? — perguntou Elend.

— Segundo os soldados, estavam separados. Quando [Conteúdo protegido por direitos autorais] os reconstituí, de fato pertenciam aos mesmos corpos.

Pousei o fêmur e passei para o crânio. Percorri a superfície com a lamparina, depois examinei o segundo, depois o terceiro. Todos intactos, sem sinal de violência, foi [Conteúdo protegido por direitos autorais] no tornozelo da terceira ossada que parei. Um furo de borda lisa e um canal estreito, a entrada de um canino que havia perfurado sem arranhas a ossada.

— Não há sinais de mordida [Conteúdo protegido por direitos autorais] — disse Elend. — Você encontrou algo?

— Todos estão limpos, como se algo tivesse tirado a carne sem força — afastei [Conteúdo protegido por direitos autorais] a lamparina e apontei com o dedo o tornozelo da terceira vítima. — Exceto esse aqui.

Troquei um olhar com Elend [Conteúdo protegido por direitos autorais] antes de virar para o clérigo.

— Algum desses ossos pertence ao [Conteúdo protegido por direitos autorais] bruxo que veio junto com os aventureiros?

— Não há marcas de mana nesses ossos. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Nenhum dos brasões comuns da guilda dos bruxos.

Endireitei o corpo. O clérigo sustentou o meu olhar. E foi nesse instante, nessa fração de segundo em que tentei lê-lo de verdade, que algo [Conteúdo protegido por direitos autorais] na minha percepção deslocou. Ele não estava vivo; a presença dele era mais o eco de alguém que permanecia ali por insistência, quase como um espectro.

— Em que momento o senhor pretendia comentar [Conteúdo protegido por direitos autorais] isso? — perguntei. — Sobre a sua condição.

Vi Elend virar o rosto para mim e depois para o clérigo, tentando captar o [Conteúdo protegido por direitos autorais] que eu havia visto, e vi quando a expressão dele mudou para algo próximo à compreensão.

O clérigo endireitou os ombros e [Conteúdo protegido por direitos autorais] abaixou a cabeça em uma pequena reverência.

— Realmente, poucos detalhes escapam [Conteúdo protegido por direitos autorais] aos olhos da senhora, Lady Zara.

Inclinei a cabeça em concordância, [Conteúdo protegido por direitos autorais] sem gentileza nenhuma no gesto.

— Demorei um pouco para perceber — murmurei. — Mas sempre pensei que [Conteúdo protegido por direitos autorais] homens abençoados pela deusa costumavam ter destinos um pouco diferentes. Irem para Valorae.

O clérigo respirou [Conteúdo protegido por direitos autorais] fundo antes de responder.

— Ainda não tenho permissão de partir, senhora. Estou aqui para cuidar dessas ossadas [Conteúdo protegido por direitos autorais] até a senhora aparecer — disse. — Não pertencem aos aventureiros, tampouco ao bruxo.

— Então são uma [Conteúdo protegido por direitos autorais] espécie de pistas plantadas?

O clérigo não respondeu, [Conteúdo protegido por direitos autorais] apenas continuou me encarando.

— Quanto a mim — continuou ele. — Confesso que [Conteúdo protegido por direitos autorais] temi esperar muito mais tempo, mesmo que tenham sido apenas semanas.

— Décadas? — murmurou Elend.

— Algo próximo disso.

— Então vamos poupar o seu tempo — cruzei [Conteúdo protegido por direitos autorais] os braços. — O que exatamente aconteceu com Oakhaven?

O clérigo ergueu os olhos por [Conteúdo protegido por direitos autorais] um instante e depois voltou a baixá-los.

— Que a deusa Aurora me perdoe, mas certas [Conteúdo protegido por direitos autorais] respostas não consigo dizê-las. A senhora provavelmente já percebeu isso.

Sustentei o olhar dele. Aurora não estava mais neste universo, e aquele homem continuava preso a um protocolo que ela [Conteúdo protegido por direitos autorais] havia abandonado junto com tudo o mais. Havia uma ironia ali que eu não me dei ao trabalho de verbalizar.

— Aurora não está mais [Conteúdo protegido por direitos autorais] neste universo — eu disse.

— Certo, então o que exatamente você quer que façamos? Como [Conteúdo protegido por direitos autorais] vocês sabiam que Lady Zara iria aparecer aqui? — Elend perguntou.

O silêncio que se seguiu foi curto, [Conteúdo protegido por direitos autorais] mas pesado. Voltei a encarar o clérigo.

— Existe algum tipo de [Conteúdo protegido por direitos autorais] contenção aqui? Algo que prenda almas?

O clérigo demorou um momento, me [Conteúdo protegido por direitos autorais] encarou, e depois soltou um suspiro.

— O que Lady Alice contou [Conteúdo protegido por direitos autorais] à senhora sobre a filha dela?

— Apenas que ela [Conteúdo protegido por direitos autorais] foi atacada por um lobisomem.

O clérigo assentiu, voltando [Conteúdo protegido por direitos autorais] os olhos para o chão.

Ergui uma sobrancelha. Mostrar ossadas sem comentário só fazia sentido se ele esperasse [Conteúdo protegido por direitos autorais] que eu chegasse à conclusão sozinha, o que era inconveniente e levemente irritante.

— Imagino que não esteja nos mostrando os ossos [Conteúdo protegido por direitos autorais] apenas por nostalgia — disse, deixando um leve sarcasmo vazar.

— Essas pessoas estavam na caravana naquele dia — disse o clérigo. — [Conteúdo protegido por direitos autorais] A senhora notou algo além do fato de que as ossadas estão limpas?

Arregalei os olhos e voltei o olhar para os ossos. Me concentrei na percepção de mana; no início foi apenas uma [Conteúdo protegido por direitos autorais] oscilação leve, quase imperceptível, próxima à magia das sombras, e depois, aos poucos, pequenas nuvens escuras começaram a se desprender das ossadas.

Elend deu um [Conteúdo protegido por direitos autorais] passo mais perto.

— Isso deveria estar acontecendo? [Conteúdo protegido por direitos autorais] — perguntou em voz baixa.

— Foram corrompidas pela mana — falei. — O [Conteúdo protegido por direitos autorais] lobisomem que atacou a cidade não está agindo sozinho.

Elend cruzou os braços ao mesmo [Conteúdo protegido por direitos autorais] tempo que voltei a encarar o clérigo.

— Então ele [Conteúdo protegido por direitos autorais] já tem um mestre?

O clérigo sustentou meu olhar [Conteúdo protegido por direitos autorais] por alguns segundos antes de assentir.

— Não posso contar, Lady Zara, mas se [Conteúdo protegido por direitos autorais] a senhora continuar, será capaz de descobrir a verdade.

Inclinei levemente a cabeça.

— Você e [Conteúdo protegido por direitos autorais] Alice fizeram tudo isso?

O clérigo ficou em silêncio.

— Vou considerar isso um "talvez" [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Elend soltou um suspiro curto.

— Tudo bem — disse, passando a mão pela [Conteúdo protegido por direitos autorais] testa. — Onde você quer que eu vá agora?

— Há um vilarejo [Conteúdo protegido por direitos autorais] na região que foi dizimado.

— Lady Alice mencionou isso — disse Elend. — [Conteúdo protegido por direitos autorais] Já estivemos nesse vilarejo ao leste. Não encontramos nada.

— Não — respondeu o clérigo, firmando os ombros. — O que Lady Alice mencionou [Conteúdo protegido por direitos autorais] foi o primeiro vilarejo atacado, semanas atrás. Estou falando do que foi dizimado na semana passada.

Troquei um olhar com Elend. Sempre um passo atrasados. E ele sabia disso tão bem quanto [Conteúdo protegido por direitos autorais] eu, via pela forma como a mandíbula dele endureceu um segundo antes de mascarar a expressão.

— Onde fica?

— Ao norte [Conteúdo protegido por direitos autorais] da torre do relógio.

Assenti, dando uma respirada mais [Conteúdo protegido por direitos autorais] funda do que o necessário.

— Tudo bem. Vamos descobrir onde está o dispositivo que está drenando sua alma — [Conteúdo protegido por direitos autorais] disse, passando pelo clérigo em direção à porta. — Todas as almas desta cidade foram capturadas?

O clérigo permaneceu quase totalmente imóvel, mas balançou a cabeça levemente em [Conteúdo protegido por direitos autorais] concordância. Agradeci com um aceno e subi a escada, com Elend logo atrás.

No topo, parei por um instante [Conteúdo protegido por direitos autorais] antes de empurrar a porta da igreja.

— Alice quer que encontremos essas pistas — disse. [Conteúdo protegido por direitos autorais] — Agora entendi o que está acontecendo nessa cidade.

— Oakhaven se [Conteúdo protegido por direitos autorais] tornou uma cidade fantasma?

— Infelizmente.

Caminhamos em silêncio por menos de um quarteirão quando avistei Alice com o cesto [Conteúdo protegido por direitos autorais] pendurado no braço e a lamparina oscilando na mão, dobrando a esquina na nossa direção.

— Lady Alice? [Conteúdo protegido por direitos autorais] — perguntou Elend.

— Esperava encontrá-los por esse caminho — respondeu ela, fazendo uma reverência. — A noite está avançando e [Conteúdo protegido por direitos autorais] está bem mais fria do que o normal para esta época. Pensei que talvez aceitassem jantar em minha casa.

— Agradecemos a hospitalidade — respondi. — Mas [Conteúdo protegido por direitos autorais] temo que não ficaremos muito tempo em Oakhaven.

— É uma pena Lady Zara, esperava [Conteúdo protegido por direitos autorais] poder escutar algumas histórias de suas aventuras.

Alice desviou o olhar por um instante para o [Conteúdo protegido por direitos autorais] norte, uniu as sobrancelhas e voltou a me encarar.

— Meu avô sempre me contava histórias sobre a sua reputação, Lady Zara. Dizia que a senhora é alguém que não descansa quando encontra um rastro, mesmo que o caminho leve a respostas incômodas ou exija decisões difíceis — [Conteúdo protegido por direitos autorais] Alice ergueu os olhos na direção do norte outra vez — Ele me falou que quando te conheceu, você o salvou de um lobo… Quem pensaria que você também estaria aqui, de novo para nos salvar de uma fera assim.

Mordi o lábio e mantive o olhar firme, mas [Conteúdo protegido por direitos autorais] sentido uma forte sensação das lagrimas surgiram no meu rosto.

— Lobos raramente caçam sozinhos, Alice — respondi, forçando a voz a não [Conteúdo protegido por direitos autorais] falhar. — Eles observam, cercam… e só avançam quando não há mais dúvida.

— Espero que sua busca não seja perigosa… há caminhos que são [Conteúdo protegido por direitos autorais] bem mais profundos do que parece. Que a deusa ilumine seus passos.

O ar pareceu mais denso contra o meu peito. Meus dedos se [Conteúdo protegido por direitos autorais] fecharam devagar, como se o aviso tivesse encontrado algo que eu já sabia.

— Seu avô era um homem sábio — respondi, deixando um sorriso surgir, leve demais para alcançar os olhos. — E quanto aos caminhos que outros [Conteúdo protegido por direitos autorais] preparam… prefiro andar pelos meus. Não chegaria muito longe se cedesse a cada desnível que alguém resolve abrir no meu caminho. Nos veremos em breve, Alice.

Inclinei a cabeça numa reverência breve antes de seguir adiante. Virei na [Conteúdo protegido por direitos autorais] esquina oposta e deixei o silêncio fazer o trabalho por alguns instantes.

— Alice está aflita... Temos que resolver logo [Conteúdo protegido por direitos autorais] tudo isso Elend — falei, parando para encara-lo.

Ele concordou com a cabeça.

— Ela estava olhando para o norte... — Elend fez uma [Conteúdo protegido por direitos autorais] careta — Todas as pessoas que encontramos até agora são fantasmas?

— Parece que sim...

Elend estreitou os olhos, e aquela falta de espanto me fez arquear uma sobrancelha. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Menos surpreso do que eu esperava, o que significava que ele já sabia de algo.

— Aerin sabia do que [Conteúdo protegido por direitos autorais] estava acontecendo aqui? — eu perguntei.

Claro que sabiam. [Conteúdo protegido por direitos autorais] Estalei a língua.

— Minha irmã sabe que eu não suporto homem [Conteúdo protegido por direitos autorais] peludo. Curioso como sempre aparece um lobisomem no meu caminho…

Elend soltou uma risada, passando a mão [Conteúdo protegido por direitos autorais] no queixo e alisando a barba por fazer.

— Fique tranquilo, você ainda tem salvação — eu disse, sorrindo [Conteúdo protegido por direitos autorais] de forma maliciosa — Não tem problemas quando são apenas alguns pelinhos...

Elend inclinou a cabeça, olhando para mim de lado, e aquele brilho [Conteúdo protegido por direitos autorais] no olhar me disse que ele estava se divertindo mais do que deveria.

— Quer que eu comece a [Conteúdo protegido por direitos autorais] uivar ou ainda não chegamos nessa parte?

Eu ri, mas logo ajeitei a postura. Foco. Respirei fundo e o [Conteúdo protegido por direitos autorais] encarei com mais firmeza, deixando o humor dar lugar ao que realmente importava.

— Minha irmã te enviou porque sabia que eu estava indo para o nordeste e passaria por Oakhaven? — estreite [Conteúdo protegido por direitos autorais] os olhos — Ela aproveitou essa missão para te mandar e me ajudar enquanto minha magia ainda não retornou completamente?

Elend confirmou com [Conteúdo protegido por direitos autorais] um movimento de cabeça.

— Droga — fiz uma careta. — [Conteúdo protegido por direitos autorais] O que o departamento de astronomia disse?

— Que a estrela vermelha ressurgiu nos [Conteúdo protegido por direitos autorais] céus — ele respondeu, mordendo o lábio.

— Tudo bem, Elend. A partir de agora, tudo que minha [Conteúdo protegido por direitos autorais] irmã te disser você vai me relatar, tudo bem? — respirei fundo.

— Então a senhora vai permitir [Conteúdo protegido por direitos autorais] que eu continue viajando ao seu lado?

— Foi para isso que ela te enviou, não foi? — balancei a mão, como se afastasse algo no [Conteúdo protegido por direitos autorais] ar — Eu estava precisando de um guerreiro… E você vai ser útil de mais formas do que imagina.

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