Quando li a sinopse de “How Dare You!?”, logo fiquei interessado na história. Assim como outras obras recentes dos c-dramas, esta é mais uma inspirada em webnovel chinesa.
A premissa é genuinamente criativa e merece crédito. Wang Cuihua, uma funcionária comum, acorda dentro de um romance que estava lendo e vira Yu Wanyin, a vilã da história. No entanto, diferente de outras obras de transmigração/iseka, o suposto vilão do livro que ela leu, Xiahou Dan, também é um transmigrado do mundo real, como ela.
Ou seja, na história não há apenas a protagonista que sabe, supostamente, tudo o que vai acontecer; existem dois forasteiros modernos presos numa intriga de palácio, tentando jogar xadrez um com o outro antes de decidirem se podem confiar um no outro.
A cena central do drama é essa dinâmica de dois transmigrados navegando juntos num mundo que não é deles. Enquanto Xiahou Dan faz o trabalho sujo de manter a aparência de imperador tirano, Wanyin faz o que ele não consegue: criar conexões com os personagens desse universo, mostrar empatia, construir alianças e, de fato, ver essas pessoas como pessoas reais, e não apenas personagens.
Eles são dois opostos complementares, e a parceria funciona bem quando o drama deixa isso respirar.
Xiahou Dan é o personagem mais interessante do drama. Ele entrou no livro aos quinze anos, sem saber quase nada do enredo; tinha começado a ler, mas logo foi puxado para dentro da história e cresceu sozinho dentro de uma ficção.
O trauma disso, de passar a infância e a adolescência inteiras num mundo que não é o seu, é pesado e faz com que a gente sinta que a mente dele foi realmente muito afetada. Assim, quando ele encontra a protagonista, de fato é um grande alívio para ele.
O problema é que, apesar de ser uma boa ideia, a série em si não aprofunda tanto isso, e essa questão de ele estar vivendo nessa história há muito mais tempo do que ela acaba sendo subdesenvolvida, como se nem a protagonista, nem ninguém que sabe desse fato, jamais tivesse, de fato, processado o quão difícil e pesado é o que ele viveu.
Se o enredo focasse mais nele, e menos nos esquemas políticos genéricos, a série seria muito mais impactante, até mesmo mais sombria. E, por falar das intrigas palacianas, me desculpe, mas o drama passa o tempo todo focado na intriga da divisão de poderes entre a imperatriz viúva e o príncipe, irmão do protagonista, enquanto ele é o imperador fantoche, sem poder político real.
Na minha opinião, isso se alonga muito e poderiam ter criado outros tipos de intrigas palacianas ao longo da trama. A imperatriz viúva, inclusive, era uma personagem que devia ter sido eliminada logo nos primeiros episódios.
Quanto à nossa querida protagonista, Yu Wanyin, ela é determinada e esperta, e a atriz carrega bem a personagem. No entanto, o roteiro comete um erro básico que se tornou um clichê nesse tipo de história: ela aceita o mundo ficcional rápido demais.
Em nenhum momento ela se sente frustrada, confusa ou perdida; ela simplesmente percebe que está numa história e já aceita a missão de evitar ser morta.
O peso familiar da atual família da personagem cujo papel ela assumiu é, mais uma vez, apenas um plano de fundo raso. Eles aparecem no drama apenas quando serve de argumento para convencer outro personagem ou para criar um suposto controle dos adversários sobre ela, mas nunca como âncora emocional de verdade.
Tanto que, se eles morressem ou não, a protagonista não se sentiria triste, porque nunca criou qualquer relação com eles; são personagens vistos como descartáveis por ela.
Quem leu a fonte, o romance “This Is Ridiculous”, elogia muito a construção gradual da confiança entre os protagonistas e a profundidade da protagonista. A adaptação comprime esse processo e perde exatamente o que tornava a relação especial.
A química dos atores existe, mas fica num nível de faísca leve, porque não houve tempo para desenvolver a base que o material original construiu tijolo a tijolo.
O vilão Xiahou Bo tinha até potencial, mas fica muito abaixo do que poderia ter sido explorado. O ódio dele por Dan soa mais como birra de um príncipe que nunca foi mimado ou amado do que como uma motivação real, afinal, ambos os irmãos sofreram abusos da imperatriz viúva.
Quando um antagonista não tem profundidade suficiente para justificar suas ações, o conflito central perde força, e é exatamente o que acontece aqui na reta final das disputas políticas.
E, mais uma vez, volto a dizer: essa briga entre os três poderes — o imperador fantoche, a imperatriz viúva e o príncipe que quer ser imperador — se alonga demais, e toda a intriga palaciana é focada apenas neles três, o que dá a sensação de alongamento, porque a história não consegue encontrar outros meios e outras tramas para se desenvolver.
A imperatriz sofre de um problema bizarro nesse tipo de drama. Ela existe só para o público odiar. Sem nuances, sem camadas, sem nada que a torne interessante além de ser o grande obstáculo. Num drama que prometia subverter clichês de transmigração, manter vilões tão planos é uma contradição.
Quando, no futuro, surge uma breve explicação do porquê de a imperatriz ser como é, isso é apenas jogado, e os personagens parecem nem se importar, porque, de fato, não é importante, já que ela não foi desenvolvida para ser uma vilã profunda, mas apenas uma personagem irritante.
Porém, o maior mérito é o timing do humor. Os dois transmigrados querendo apenas comer hot pot e jogar cartas num mundo que insiste em ser trágico, cheio de intrigas e no qual eles estão condenados à morte, é um subtexto que funciona bem nas cenas mais leves.
Esse contraste entre a mentalidade moderna deles e a seriedade mortal da corte imperial produz momentos genuinamente engraçados e refrescantes.
Há alguns episódios genuinamente emocionantes e momentos que me fizeram gargalhar, o que diz bastante sobre como a série acerta o tom emocional quando o roteiro não está atrapalhando com sua trama supérflua.
No balanço final, é uma série que tem uma premissa interessante ao tentar mudar a ideia de apenas uma pessoa indo para outro mundo, focando em dois transmigrados modernos presos num romance de intriga imperial, tentando quebrar o enredo que foi escrito para eles enquanto se apaixonam no processo.
Quando funciona, funciona muito bem; quando tropeça, é por não confiar o suficiente na própria premissa ou no espectador.