Depois dos Créditos
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Ainda Estou Aqui

2024
Nota

Sinopse

No início da década de 1970, o Brasil enfrenta o endurecimento da ditadura militar. No Rio de Janeiro, a família Paiva, formada pelo casal Rubens e Eunice e seus cinco filhos, vive à beira da praia em uma casa de portas abertas para os amigos. Um dia, Rubens é levado por militares à paisana e desaparece. Sua esposa é então obrigada a se reinventar e traçar um novo futuro para si e seus filhos enquanto tenta descobrir a verdade sobre o destino do marido, uma busca que se estenderia por décadas.

A Resenha

Leia Abaixo

Assim como a Segunda Guerra Mundial ainda traz muitas surpresas e possibilidades que se baseiam, de alguma forma, em relatos reais do que aconteceu, também é verdade que, por mais que tenhamos muita coisa documentada, não sabemos realmente de tudo.

No Brasil, temos a ditadura militar, uma época sombria que causa repulsa, mas também fascínio histórico, justamente por permitir entender como as pessoas que viviam diretamente dentro desse caos — ou que sofreram suas consequências — o experienciaram.

Ainda Estou Aqui é exatamente sobre isso. O filme, baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva, filho de um dos personagens que mais sofreram as consequências desse período, é uma forma poderosa de compreender como políticos, artistas e até mesmo pessoas comuns conviviam com um contexto marcado por restrições, opressões e agressões do Estado.

No Rio de Janeiro dos anos 70, o ex-deputado Rubens Paiva é retirado de casa por militares para um interrogatório, sob a suspeita de ser espião ou de ajudar, de alguma forma, os inimigos do Estado. O que deveria ser apenas um depoimento simples, logo, se transforma no fim abrupto desse homem, que foi um dos primeiros a se levantar contra o regime ainda nos meses iniciais de 1964.

Mas o filme não nos mostra essa história pela perspectiva dele. Em vez disso, escolhe olhar para quem ficou, para quem de fato vivenciou o depois e, nesse caso, é a família.

O roteiro tem um cuidado impressionante com o tempo. Ele demora a colocar Fernanda Torres no centro, porque antes nos faz conhecer o pai, a casa, os filhos, os amigos. Só depois Eunice assume o protagonismo, e essa construção faz toda a diferença, pois permite entender o tamanho do que será perdido.

A partir daí, o vazio se torna o símbolo mais poderoso do filme, presente em tudo. Na trilha sonora que desaparece após o sequestro, deixando o silêncio dominar. Nos enquadramentos que cortam a cabeça de Rubens antes de seu desaparecimento e em Eunice descalça no chão da casa, como se a sentisse pela última vez.

Tudo conduz à compreensão de quão brutal e violenta foi a ditadura, sem que o filme precise dizer isso explicitamente. Ele não dita o que você deve sentir, ele faz você viver.

Fernanda Torres é um fenômeno. Ela começa com o corpo fechado, as mãos unidas, a voz travada, e, aos poucos, se transforma em uma mulher cada vez mais forte, que precisa cuidar sozinha da família e das finanças, ao mesmo tempo em que enfrenta um Estado opressor que levou seu marido.

Há uma cena em que ela conta dinheiro em um quarto pequeno, diante do espelho. A câmera usa o reflexo porque não consegue enquadrá-la de outra forma, como se nem o espaço fosse suficiente para comportar o que ela carrega.

E, quando o filme precisa mostrar quem Eunice Paiva foi de fato, entendemos como essa mulher se tornou um símbolo na luta pelo resgate histórico do que aconteceu durante a ditadura militar.

Ela foi uma mulher que teve que aprender a usar a dor como combustível. E quando alguém que já nasceu forte passa a usar essa força plenamente, o resultado é impressionante. O filme planta isso desde o início. Quando Marcelo encontra um vira-lata, ele não pede à mãe, porque sabe que não conseguiria convencê-la a aceitar o animal; ele vai ao pai. O pai pergunta o que Eunice disse, e Marcelo inventa uma história, dizendo que a mãe mandou perguntar a ele.

Desde o começo, fica claro que Eunice é, de fato, a matriarca da família. E quando a narrativa finalmente se concentra nela, já sob a ausência de Rubens, o filme assume quase um tom de terror psicológico.

Sabemos o que aconteceu, mas a tensão está em tudo, em todos os lugares, porque entendemos que, naquele período, era exatamente assim. A violência e a opressão estavam por toda parte, na esquina, em um telefonema, na leitura ou na escuta do jornal.

O Estado estava em todos os lugares, vigiando. E, quando parece que não há mais nada a extrair, o filme dá um salto no tempo e Fernanda Montenegro entra em cena.

E só de lembrar daqueles poucos minutos dela em tela é o suficiente para eu voltar a me arrepiar. Montenegro encerra um filme impecável com apenas um olhar, em uma das cenas mais devastadoras, simbólicas e fortes que já assisti.

Em um simples olhar, você sente uma vida inteira: a luta, o enfrentamento, o sofrimento, as conquistas, a solidão, a tentativa de dar um fim digno ao homem que ela amava, o esforço para fazer o Estado admitir as atrocidades que cometeu. Ainda Estou Aqui é um daqueles filmes devastadores que não precisam gritar para chamar atenção, porque o mais importante está justamente no que não é dito, no que não é mostrado.

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