Demorei anos para chegar em Mistborn, a trilogia de Brandon Sanderson que todo fã de fantasia conhece de nome, mas nem todo mundo leu.
Quando finalmente li, alguns anos atrás, ele já era um autor consolidado, e Mistborn sempre foi tratado como uma de suas melhores obras.
A história se passa em um mundo dominado por um império opressor, com um imperador aparentemente imortal no topo.
A população escravizada, os skaa, já nem lembra o que é liberdade. É nesse cenário que surge Kelsier, com um plano absurdo e o desejo de mudar completamente o status quo.
Kelsier é daquele tipo de personagem que você ama desde o primeiro segundo: cheio de si, debochado, sarcástico e com um ego enorme. É como um Han Solo em uma fantasia medieval.
Mas, por baixo de tudo isso, há uma história de perda e uma vontade de vingança que move a trama inteira.
A partir disso, ele monta um grupo de ladrões, fugitivos e rebeldes para executar essa missão praticamente suicida.
É nesse ponto que a “found family” do livro começa a se formar, e esse é um dos aspectos mais fortes da narrativa.
Passamos tanto tempo conhecendo cada um deles que acabamos nos apegando aos seus maneirismos, jeitos e formas de agir, o que torna tudo mais envolvente.
Entre os membros do grupo, Sazed foi quem mais me surpreendeu. Ele é um estudioso que preserva lendas e histórias que o Senhor Soberano tentou apagar, e o mistério em torno dele cresce ao longo das páginas até se tornar essencial para entender todo o universo da obra.
Já Vin é a outra protagonista, uma adolescente criada nas ruas que não confiava em ninguém.
Acompanhar sua transformação — de alguém resistente e fechada para alguém que começa a amar Kelsier como mentor — é incrível.
Aos poucos, ela se abre para essa família improvisada de rebeldes, ao mesmo tempo em que nos convida a também fazer parte dela.
Esse é, sem dúvida, um dos processos mais naturais e bem escritos do livro.
Outro ponto de destaque é o sistema de magia de Mistborn, que é uma das ideias mais criativas que já encontrei na fantasia.
Os personagens manipulam metais, cada um com propriedades diferentes. Pode parecer estranho à primeira vista, mas, na prática, é genial.
Isso torna as cenas de ação extremamente dinâmicas e interessantes. O worldbuilding e o sistema de magia são complexos, mas nunca cansativos ou difíceis de entender, o que mostra o cuidado na construção desse universo.
A ambientação também merece destaque. A construção do mundo é detalhada sem ser exaustiva: a chuva constante de cinzas, o céu avermelhado e a vegetação estranha vão sendo apresentados aos poucos, criando uma atmosfera pesada e claustrofóbica que combina perfeitamente com o cenário de opressão.
Mistborn também aborda temas políticos, especialmente como a injustiça precisa atingir níveis insuportáveis antes que as pessoas se levantem.
Essa sensação de urgência cresce ao longo da leitura, e chega um ponto em que você quer derrubar o Império Final junto com os personagens.
O ritmo da narrativa começa mais tranquilo, enquanto o livro apresenta o mundo e as regras da magia, mas acelera bastante na segunda metade, algo que parece ser uma tendência do Brandon.
A história pode até demorar um pouco para engrenar, mas, quando engrena, fica difícil largar. Todos os livros dele que li após Mistborn seguem essa mesma estrutura.
As cenas de ação são visuais, detalhadas e cheias de tensão, contribuindo ainda mais para o envolvimento com a trama.
E o final é daqueles que realmente mexem com o leitor: tem reviravoltas que até hoje me fazem questionar como o autor teve coragem de escrever.
Para ser sincero, fiquei até com raiva em alguns momentos. Sanderson não tem medo de pesar a mão com personagens que você ama.
Ao longo da leitura, fica nítido por que tantos escritores de fantasia citam Mistborn como referência. Sanderson construiu algo que soa familiar na forma de leitura, mas que é completamente original no que apresenta.