Tem um gênero que eu amo, mas que raramente consegue acertar de verdade. A maioria dos filmes de ficção científica acaba se tornando maçante por exagerar em conceitos científicos difíceis de acompanhar, ou então cai no extremo oposto: vira algo genérico, preso naquele velho lugar-comum que a gente já viu dezenas de vezes.
Por isso é tão difícil encontrar um filme de ficção científica que realmente seja bom.
Porém, esse filme consegue ser um verdadeiro frescor dentro do gênero. Eu não sabia absolutamente nada sobre a história de Devoradores de Estrelas quando fui assistir.
Comecei a assistir sem expectativa alguma, movido apenas pelo fato de ser baseado em um livro do mesmo autor de Perdido em Marte, um filme de que eu gosto bastante. Então, no fundo, eu já comecei querendo gostar dele.
E, sinceramente, eu amei o filme.
Não esperava terminar a sessão com aquela sensação boa no peito, depois de rir em vários momentos, ficar genuinamente tenso em outros e até me emocionar a ponto de chorar.
Devoradores de Estrelas, título brasileiro de Project Hail Mary, é um filme sublime. Sim, ele lembra muitas outras obras, mas hoje em dia o que não lembra?
Arte sempre nasce de referências, e é justamente na forma como elas são reorganizadas que surge a genialidade. E esse me parece exatamente o tipo de filme que vai permanecer na memória das pessoas por muito tempo.
A direção é de Phil Lord e Christopher Miller, os mesmos responsáveis por Homem-Aranha no Aranhaverso e Tá Chovendo Hambúrguer. E isso explica muito do ritmo e do tom que o filme carrega.
Os dois possuem um timing cômico extremamente afiado, mas também sabem exatamente o momento de criar aquele nó na garganta.
São diretores que entendem com maestria como conduzir a emoção do público, fazendo você sentir exatamente o que eles querem, no instante exato em que querem.
O roteiro adapta o livro de Andy Weir. Quem leu diz que a adaptação é muito fiel e extremamente competente. Eu não conheço o material original, mas o filme funciona perfeitamente mesmo para quem não conhece nada.
A premissa começa de maneira simples: Ryland Grace desperta sozinho em uma nave, sem lembrar quem é ou por que está ali. Aos poucos, os flashbacks vão montando o quebra-cabeça junto com o espectador, e isso funciona muito bem porque você compartilha da mesma confusão e da mesma angústia do personagem.
Aliás, a forma como o filme alterna entre passado e presente, fazendo as duas linhas narrativas avançarem em paralelo, é algo extremamente sofisticado e usado com muita inteligência.
O mais impressionante é como a ficção científica aqui parece plausível e realmente inteligente. As soluções envolvendo combustível e energia para viagens interestelares são apresentadas de um jeito tão convincente que você simplesmente compra a ideia, sem precisar ser cientista para entender os conceitos ou acreditar na lógica daquilo tudo.
Ryan Gosling entrega uma das performances mais completas da carreira. Ele é engraçado quando precisa ser, emociona quando o roteiro exige, e nunca exagera em nenhuma das diferentes emoções que o personagem pede. Está absurdamente bem.
E Grace é um personagem muito estranho, mas incrivelmente interessante. O mais curioso é que dá para perceber o quanto ele é inteligente apenas pelas expressões do Gosling.
Já Sandra Hüller, indicada ao Oscar por Anatomia de uma Queda, tem aqui um papel importantíssimo. Sua personagem é estranha, misteriosa e, em certos momentos, quase desconfortável, mas ainda assim extremamente fascinante.
Hüller interpreta tudo com uma seriedade muito particular, carregada de um humor sutil que rende ótimos momentos com Grace nos flashbacks. E é justamente dessa dinâmica que nasce uma empatia genuína, daquelas que você nem percebe surgindo até já estar completamente envolvido.
Mas o verdadeiro coração do filme está na relação que o protagonista constrói com outro ser completamente diferente dele. Os dois compartilham um mesmo objetivo e, apesar de pertencerem a espécies incapazes até de respirar o mesmo ar, acabam criando um vínculo profundamente humano. É impossível não se apegar.
E, sinceramente, Rocky é a melhor coisa do filme.
Não faço ideia se isso vem mais do texto original, da adaptação ou da direção. Só sei que eu jamais imaginaria chorar por causa de uma rocha alienígena com aparência de aracnídeo que consegue ser absurdamente fofa.
Me lembrou muito da sensação que tive ao chorar por causa de um barco em outra história. Foi exatamente o mesmo tipo de apego. Sofri com eles, ri com eles, comemorei com eles.
E, sendo sincero, quando finalmente descobrirmos vida fora da Terra, eu espero de verdade que existam seres como Rocky. Porque eu definitivamente gostaria de ter um Rocky como amigo.
Isso me lembra muito E.T. – O Extraterrestre. No começo, aquela figura parece estranha. Aos poucos você vai entendendo quem ela é, criando intimidade, e quando percebe já está completamente apaixonado pelo personagem.
É praticamente uma aula de como fazer o público se importar com alguém sem precisar ficar repetindo que ele é importante.
O tom do filme talvez seja o que mais surpreenda. Tudo nele tinha potencial para ser extremamente pesado — afinal, estamos falando de uma missão desesperada para salvar a humanidade —, mas o filme nunca se torna excessivamente denso. Ele sabe ser leve quando precisa, sem perder o impacto nos momentos certos.
É uma verdadeira montanha-russa emocional, cheia de humor, tensão e momentos extremamente fofos do começo ao fim. E justamente por equilibrar tão bem essas emoções, quando surge uma cena realmente séria, ela te pega completamente desprevenido. No mínimo, você vai lacrimejar.
Mesmo com duas horas e trinta e seis minutos de duração, não existe sensação de desperdício. O filme simplesmente não enrola. E eu sou exatamente o tipo de pessoa que percebe quando um roteiro começa a esticar demais as coisas.
Mas aqui não. Eu assisti duas vezes, e honestamente acho que esse vai virar meu filme de conforto. Que filme maravilhoso.
Sem dúvida nenhuma, já entrou para a lista dos meus favoritos. E sempre que eu precisar sentir tudo de novo — rir, sofrer, me emocionar e sair com o coração aquecido — vou voltar para a jornada de Rocky e Grace outra vez.