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Gazeta da Aurora

VOL. LXIV ... NO. 898 "Clareza e Autenticidade em cada Linha" PREÇO: DIGITAL

Por que gostamos de histórias?

POR CONSELHO EDITORIAL
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Os seres humanos sempre gostaram de contar histórias. Talvez essa tenha sido uma das nossas primeiras grandes habilidades e, na minha visão, uma das que mais nos diferenciou como seres racionais, porque narrar não serve apenas ao entretenimento, à distração ou à fuga da realidade.

Nesse sentido, existe algo mais profundo nisso, algo que antecede qualquer tela, qualquer livro impresso, qualquer forma de entretenimento que conhecemos hoje. Essa vontade de narrar é biológica, intrínseca. Toda criança nasce fascinada por ouvir histórias, por brincar imaginando ser outra coisa, por inventar narrativas com seus próprios brinquedos; antes mesmo de entender o mundo, ela já tenta organizá-lo em forma de história, atribuindo intenções, causas e consequências a tudo ao redor.

Diante disso, surge uma questão inevitável: por que o ser humano tem tanta necessidade de fazer isso?

A resposta fácil seria dizer que as histórias nos distraem, informam e entretêm, o que, de fato, elas fazem. Ainda assim, o problema é que essa resposta não alcança a intensidade da nossa relação com elas. Não apenas apreciamos uma boa história: nos perdemos nela. Choramos por personagens fictícios, revisitamos filmes em busca de um sentimento específico, carregamos certas narrativas como se fossem parte da nossa identidade. Isso ultrapassa o entretenimento; uma história pode ajudar a formar o caráter de gerações inteiras.

É justamente a partir dessa profundidade que o filósofo Paul Ricoeur dedicou boa parte de sua obra a entender exatamente isso, chegando à conclusão de que o ser humano é, antes de tudo, um animal narrativo. Não apenas contamos histórias sobre o mundo, mas construímos a nossa própria identidade por meio delas. Sem narrativa, não há memória coerente; sem memória coerente, não há senso de quem somos.

Essa ideia ganha ainda mais força quando olhamos para a nossa própria vida, que é, na maior parte do tempo, desordem. O caos de uma rotina agitada, de uma existência que quase não nos dá tempo para respirar. Todos já vivemos perdas, algumas pequenas, outras irreparáveis. Já experimentamos alegria intensa, conhecemos pessoas importantes que, com o tempo, deixaram de fazer parte da nossa vida. Conquistamos coisas, perdemos outras, mudamos de direção mais vezes do que conseguimos contar.

Dessa forma, tudo isso pode ser lido como caos, porque a vida é imprevisível a ponto de, muitas vezes, parecer inacreditável. Basta lembrar da pandemia de COVID-19: naquele período, a realidade superava qualquer narrativa que poderíamos imaginar e, não por acaso, as pessoas correram para séries, livros e filmes com uma intensidade incomum. A ficção oferecia o que a realidade parecia incapaz de entregar: alguma estrutura, algum sentido, algum horizonte.

É precisamente por isso que contamos histórias. Elas criam coerência onde antes havia apenas fragmentos e, mais do que isso, ressignificam sentimentos e experiências. Assim, contamos, criamos e consumimos narrativas porque, por meio delas, conseguimos dar forma ao que antes era difuso.

Uma narrativa tem começo, meio e fim. Tem causa e consequência. Tem personagens que desejam algo, enfrentam obstáculos e chegam a algum lugar, seja esse lugar uma vitória, uma derrota ou uma transformação. Por isso, essa estrutura não é uma convenção arbitrária da literatura, mas algo que existe porque espelha aquilo que reconhecemos na própria vida, mesmo quando a vida se recusa a se organizar com tanta clareza.

Quando escritores estudam teoria narrativa, é comum tratarem esses padrões como receitas de sucesso: o arco do personagem, a virada de segundo ato, a estrutura em três atos que sustenta desde tragédias gregas até roteiros de Hollywood. Com isso, tudo vira técnica, ferramenta, estratégia comercial. Essas estruturas funcionam, sem dúvida, só que essa leitura é simplória e deixa escapar o que há de mais interessante nelas.

Isso acontece porque esses padrões se repetem na medida em que correspondem a algo real. A tragédia ressoa há milênios não porque dramaturgos a copiaram uns dos outros, mas porque todos já vivemos alguma versão dela: a queda por um excesso, o momento em que tudo desmorona antes de qualquer reconstrução ser possível, a percepção tardia do que se perdeu. Isso acontece quando mudamos de carreira e descobrimos que não era o que queríamos, quando insistimos em um relacionamento além do ponto de ruptura, quando deixamos o orgulho falar mais alto do que a lógica. Assim, a narrativa arquetípica ressoa porque não descreve personagens fictícios vivendo algo distante, mas sim espelha a nossa própria jornada.

Seguindo essa lógica, quando uma história realmente nos afeta, ela revela algo sobre nós mesmos que ainda não havíamos percebido ou nomeado. Pode ser um medo escondido, um desejo que julgávamos inadequado, uma crença nunca questionada ou um sentimento antigo que volta à superfície. Uma história de amor nos faz revisitar as nossas próprias histórias; uma vitória, uma perda, um gesto simples podem reacender algo que já existia dentro de nós, adormecido.

Nesse sentido, a história funciona como um espelho, talvez um dos mais honestos que temos, mais do que muitas das conversas que mantemos com amigos, familiares ou parceiros. Ainda assim, ela não tenta nos poupar; apenas revela o que estávamos escondendo. Quando nos emocionamos com um personagem, não é apenas sobre ele, mas sobre aquilo que sentimos na nossa própria vida.

Por consequência, certas obras marcam fundo e acabam se confundindo com quem somos. As histórias que permanecem não são necessariamente as mais espetaculares ou tecnicamente perfeitas, mas aquelas que tocam alguma verdade íntima, algo que reconhecemos sem nunca termos conseguido colocar em palavras e que, de repente, aquela narrativa diz por nós.

Hoje, vivemos numa época em que as histórias estão mais acessíveis do que nunca: séries, filmes, animes, podcasts, jogos narrativos, romances gráficos, fanfictions, livros independentes, reels, vídeos no YouTube. Nesse cenário, nunca consumimos tantas narrativas e, talvez justamente por isso, a linha entre ficção e experiência real tenha se tornado mais porosa. Usamos personas como referência emocional, construímos identidade a partir de histórias, elaboramos lutos por meio da arte, interpretamos nossos relacionamentos à luz das narrativas que consumimos.

Ainda assim, isso não é, necessariamente, alienação ou fuga, como muitas vezes se critica. É o mesmo impulso de sempre, apenas amplificado: usar as narrativas como ferramenta para compreender o que é real. Quando nos perdemos em uma boa história, não abandonamos a realidade; à nossa maneira, tentamos entendê-la.

No fundo, tudo isso nos leva de volta à mesma questão que sempre esteve presente. Essa sempre foi a grande pergunta que as histórias tentam responder: o que significa viver em um mundo tão caótico?

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