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Gazeta da Aurora

VOL. LXIV ... NO. 895 "Clareza e Autenticidade em cada Linha" PREÇO: DIGITAL

Por que algumas histórias, mesmo ruins, fazem sucesso?

POR CONSELHO EDITORIAL
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Sempre me perguntei por que certas obras, mesmo sendo claramente acima da média, não conquistam o sucesso que merecem, enquanto outras, bem mais modestas em qualidade, se tornam fenômenos.

Para responder a isso, é preciso considerar o tempo em que vivemos: uma era do espetáculo e da superexposição, onde viralizar exige quase sempre um elemento chocante, chamativo, capaz de provocar reação imediata.

Tudo o que se produz parece precisar ser grandioso, um verdadeiro evento.

Quando trazemos essa lógica para o campo das histórias, caímos na mesma armadilha: cada novo lançamento precisa ser o grande hype da semana, o assunto que dura um ou dois dias até ser engolido pelo próximo. É uma superexposição sem pausa, sem respiro.

Nesse contexto, já não basta contar uma boa história, criar personagens densos ou construir uma narrativa que empolgue sem recorrer a explosões e estímulos incessantes. Também parece insuficiente fazer o que uma boa história sempre fez bem: tocar os sentimentos de alguém sem precisar gritar “olha como sou incrível, compartilha nas redes”.

Como consequência, histórias cheias de camadas acabam rotuladas como “lentas” ou com a impressão de que “nada acontece”. Há, porém, uma diferença clara entre uma narrativa parada, vazia, e outra que, mesmo sem grandes estímulos, constrói muito por meio de diálogos, olhares ou silêncios.

Narrativas que se desenvolvem com calma, que apostam no detalhe humano e preferem o murmúrio ao grito, competem em desvantagem num ambiente onde o algoritmo favorece exatamente o oposto.

Vivemos também num mundo cada vez mais segmentado por nichos. Muitos dos chamados gurus da internet insistem na ideia de que é preciso se limitar a uma única coisa, um único formato: encontrou o que funciona, então repita, porque qualquer mudança ameaça desmoronar o que foi construído.

Voltando à pergunta inicial, uma resposta possível é que histórias medianas costumam entregar exatamente o que o público espera, sem surpresas e sem atrito.

Isso soa prepotente? Pode soar. Pode parecer a visão de um autor convicto de que o público deveria gostar do que ele faz, quando, na realidade, as pessoas preferem outra coisa, e talvez o que ele criou não seja tão bom quanto imagina.

Ainda assim, o público nem sempre sabe com precisão do que gosta. Às vezes, alguém encontra uma história da qual não esperava nada e ela se torna a favorita, a que mudou a vida dela.

O papel do artista, do criador, do contador de histórias é criar; agradar ou não é uma outra questão. O problema aparece quando se produz com base apenas em fórmulas prontas, sob a justificativa de que “é isso que o público quer”.

Parece contraditório e, de certa forma, é, mas o ser humano também o é.

Entra aí outro fator decisivo: a armadilha da dopamina constante. Com a popularização dos vídeos curtos, passamos a viver num ambiente de estímulos contínuos, onde o celular raramente sai da mão e, para muita gente, ficar sem ele já provoca desconforto real, uma ansiedade difícil de ignorar.

Inseridas nesse ritmo acelerado, as pessoas passam a reagir ao consumo de histórias de maneira semelhante: se uma narrativa não gera uma onda de comentários, a conclusão imediata é que não deve ser boa, pois o silêncio é lido como sinal de fracasso.

O movimento inverso também existe: se todo mundo fala, talvez seja genérico demais para valer a pena.

Diante disso, surge a pergunta natural: uma obra densa e complexa é capaz de criar hype? A resposta é sim e não.

Às vezes, é preciso aceitar que uma história não precisa se tornar o maior sucesso de bilheteria ou de streaming; ela só precisa existir e contar o que se propõe. O resto, com o tempo, pode acontecer.

Quantos livros foram dados como esquecidos e, anos depois, ressurgiram como grandes referências?

No fim, a arte e a narrativa são reféns do seu tempo, e o nosso tempo exige estímulo constante. Saímos de uma sessão de cinema ou de uma maratona de série muitas vezes exaustos, e essa exaustão, cedo ou tarde, cansa.

É justamente aí que as grandes histórias ressurgem. Se hoje predominam narrativas pensadas como eventos, é possível que em breve haja um retorno ao essencial: histórias que realmente marcam, que ficam, em vez de apenas provocar uma sensação momentânea de pertencimento a uma bolha.

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