Tem animes que você assiste, curte e esquece. Tem animes que fica gravado na memória pra sempre. Code Geass está firmemente no segundo grupo, e eu digo isso com total convicção depois de ter assistido as duas temporadas mais de uma vez.
Eu sou apaixonado por Code Geass, sei que ele tem alguns problemas, clichês e conveniências, porém tem talvez o melhor final de todos os tempos dos animes, e isso já compensa muito.
A premissa é simples: um príncipe exilado recebe um poder sobrenatural e decide derrubar o império que destruiu sua vida. Ainda assim, Code Geass não é simples em absolutamente nada.
Cada episódio funciona como uma partida de xadrez, onde as peças são pessoas reais, com consequências reais, e Lelouch é o jogador mais frio e fascinante que você vai encontrar num anime. É justamente essa dinâmica que sustenta a complexidade da narrativa e mantém tudo em constante movimento.
O que me prendeu desde o primeiro episódio foi a forma como a série equilibra política, guerra e dilema moral sem nunca soar pesada demais. Você não precisa gostar de mecha pra se apaixonar por essa obra, porque os robôs são instrumentos da narrativa, não o centro dela. O centro é Lelouch, o conflito dele, as escolhas que ele faz e o preço que paga por cada uma delas, e é isso que dá sentido a tudo.
A primeira temporada constrói esse universo com calma, apresenta o mundo, os personagens, as facções e vai escalando a tensão de um jeito que te deixa sem fôlego. Ao mesmo tempo, o ritmo tem alguns tropeços, sim. Alguns episódios no colégio quebram o ritmo das batalhas e parecem pertencer a outro anime, mas ainda assim funcionam como um alívio necessário antes das pancadas que vêm logo depois.
Dentro dessa construção, Kallen é um exemplo perfeito de personagem bem construído na primeira temporada. Ela começa como suporte e vai crescendo até virar um dos pilares emocionais da série. Além disso, cada personagem tem uma função clara na história, e quando algum deles sofre, você sente de verdade.
Tudo bem, existem personagens secundários que não são bem explorados, mas isso não é um grande problema, até porque o anime precisaria de no mínimo mais cem episódios para conseguir trabalhar de forma justa cada um dos bons personagens que são apresentados.
Quando a segunda temporada, R2, chega, a energia muda completamente. Ela é mais intensa, mais caótica, mais emocional, e Lelouch atinge outro nível de profundidade. Aos poucos, você começa a entender que ele não é um herói nem um vilão, e essa ambiguidade se torna o coração pulsante da série. Ele faz coisas que você não esperaria dele, toma decisões que machucam, e mesmo assim você continua do lado dele.
Seguindo esse ritmo, as reviravoltas em R2 são absurdas. Literalmente cada episódio termina com uma virada que te obriga a começar o próximo imediatamente. Em alguns momentos, chega a ser ridículo de tão improvável, e sabe o que é curioso? Ainda assim funciona. A série é tão boa, tão divertida, e te pega de um jeito tão diferente que você aceita o absurdo como parte do pacote.
Visualmente, Code Geass envelheceu bem, o que reforça ainda mais sua identidade. O design dos personagens pelo CLAMP é inconfundível, com aquele estilo de corpos alongados e expressões dramáticas que cria uma identidade visual única.
Além disso, as batalhas com os Knightmare Frames têm intensidade e escala, com aquela qualidade Sunrise que impressiona mesmo nos momentos mais caóticos da ação.
Junto disso, a trilha sonora merece menção especial. “COLORS”, do FLOW, ainda é um dos melhores temas de abertura da história dos animes. As músicas carregam um peso emocional que amplifica cada cena ao invés de apenas acompanhar. Inclusive, quase chorei quando ouvi a abertura ao reassistir, e não é exagero.
Mas o que mais me impressiona em Code Geass é a capacidade de tratar os seus personagens sem julgamento. Ninguém é puro herói, ninguém é puro vilão. O Império Britannia é brutal e opressor, mas ainda assim tem personagens do lado britanniano com humanidade e profundidade.
Essa recusa em simplificar o bem e o mal eleva a série muito acima da média, principalmente do que vemos na indústria dos animes.
Por isso, quando chegamos à resolução das duas temporadas, o impacto é ainda maior. É uma das mais corajosas que já vi num anime. O final não entrega o que você espera, entrega algo melhor: algo que dói, que faz sentido e que fica na cabeça por semanas.
Poucos animes terminam com essa clareza e essa coragem narrativa. Ela consegue fazer o que Attack on Titan tentou: fazer você entender que o protagonista cometeu genocídio por um motivo, e que ele sabe que o que fez é algo extremo e será marcado na história.
Tanto o protagonista quanto a história têm coragem de assumir a escolha absurda, extrema e principalmente maligna de assumir a postura de um ditador para impedir que o ódio continue se propagando.
Ainda assim, claro que existem escorregadas. Personagens que aparecem, somem e voltam sem desenvolvimento suficiente, e algumas subtramas da R2 parecem apressadas perto do clímax. Além disso, o ritmo irregular entre comédia escolar e drama político de guerra é uma escolha questionável que divide opiniões. Mesmo assim, nenhum desses pontos diminui o impacto geral da obra.
No fim, Code Geass é o tipo de anime que redefine o seu parâmetro de qualidade. Depois dele, fica difícil se satisfazer com protagonistas rasos ou histórias sem consequências reais.
Lelouch é um dos personagens mais completos que esse meio já produziu, e a jornada dele, com tudo que funciona e tudo que tropeça, ainda vale cada minuto investido. E o final dele, sempre que eu assisto, eu choro.
Se você nunca assistiu, para e vai lá agora. Se já assistiu, sabe exatamente do que estou falando.