Hamnet talvez seja um daqueles filmes que, quando eu fui assistir, já esperava que seria bom. Porém, mesmo assim, todas as minhas expectativas não me prepararam para o filme que eu assisti nem para o impacto que ele me causou quando acabou.
Aqui acompanhamos um casal que tenta criar uma família numa época em que a morte batia na porta com frequência e em que até uma gripe era perigosa. E é nesse contexto que essa família vai crescendo, nascem os filhos, até que um deles acaba, infelizmente, falecendo.
E é então que entra aquela ideia de fazer um drama digno de William Shakespeare. Bem literalmente, aqui é uma história sobre William Shakespeare, seu drama pessoal e sua esposa, que aqui é chamada de Agnes. E é essa mulher que carrega toda essa história.
Chloe Zhao, a mesma diretora de Nomadland, entrega um filme que não tem pressa nenhuma. Ela constrói cada cena como se fosse um ritual, então cada detalhe ali vai ser usado em algum momento, e tudo transformará essa trama em algo que beira a perfeição.
Mas, voltando a quem realmente importa nessa história, temos Agnes. Que personagem, que mulher, que protagonista. Apesar de ser uma história em que Shakespeare é um dos protagonistas, ele se torna totalmente secundário diante de Agnes, que domina o filme inteiro. Jessie Buckley entrega uma das melhores atuações que já vi em anos, talvez da década.
E isso fica ainda mais evidente em cenas tão absurdas em que ela não fala nada, não tem um diálogo sequer, mas tudo é tão potente por conta dela, do jeito que se move, de como ocupa o espaço, de como atrai os holofotes para si, que, sinceramente, o filme podia ser só monólogos dela e ainda assim seria uma obra-prima.
Paul Mescal faz bem o que sempre faz, um personagem melancólico e sensível, mas aqui com um peso extra. O Shakespeare dele não é um gênio em pedestal. É um homem quebrado tentando se recompor, e a câmera fica ao lado, assistindo esse processo sem julgamento. Literalmente, ele é jogado de escanteio porque a história não é sobre ele.
O que mais me surpreendeu foi a decisão de não explicar nada. O filme não fica gritando “olha, isso aqui virou Hamlet”. Pelo contrário, ele planta as conexões e deixa a gente fazer as relações. É um respeito imenso pela inteligência do espectador, e só quando a gente precisa que seja minimamente traduzida, os próprios personagens sentem essa necessidade, que é o que acontece no final. E aí entendemos quão bem escrita foi cada cena desse filme.
A fotografia é estática na maior parte do tempo. E, quando a câmera se move, é para buscar Agnes. Quando fica parada, é porque estamos observando o Will como se estivéssemos na plateia de um teatro. Essa distinção parece pequena, mas muda completamente a forma como você sente cada personagem.
Ao mesmo tempo, o som é assombroso, e aqui nenhum silêncio é realmente silencioso. A madeira da casa range, o vento geme lá fora, e você sente o tempo todo que algo está prestes a acontecer, como se uma tragédia digna de Shakespeare estivesse prestes a acontecer.
Existe, inclusive, uma sensação de perigo constante no filme, mesmo antes da tragédia. Agnes é tratada como bruxa pelos vizinhos, e a câmera a enquadra como se fosse uma presença quase sobrenatural. Isso cria uma atmosfera de tensão que não te larga em momento nenhum.
E é no terceiro ato que tudo se encaixa. O que Zhao faz ali, com Agnes na plateia assistindo Hamlet, é uma das sequências mais poderosas que o cinema entregou nos últimos anos. Ela começa resistindo, achando tudo aquilo um absurdo para a memória do seu filho, e, quando termina, ela e você estão chorando por aquele buraco que Hamnet deixou no peito, tanto da trama quanto dos nossos corações.
Claro, não é um filme perfeito no sentido técnico de não gerar discussão. Algumas pessoas podem achar lento, outras podem achar muito melodramático, e está tudo bem. É o tipo de obra que divide mesmo.
Ainda assim, o que Hamnet faz com a ideia de arte é único. Ele não romantiza o processo criativo. Ele mostra que criar, de verdade, é uma resposta urgente à dor, às vezes isolada, solitária, que pode fazer o criador, o artista, se afastar tanto das outras pessoas que ele se torna alguém solitário, capaz de conectar tantas pessoas, mas que, ao mesmo tempo, já não consegue mais se conectar com ninguém.