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VOL. LXIV ... NO. 992 "Clareza e Autenticidade em cada Linha" PREÇO: DIGITAL

Como Frieren desconstrói a jornada do herói?

POR CONSELHO EDITORIAL
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Você já reparou que toda história de herói que a gente ama parece seguir a mesma receita? A famosa jornada do herói? É só pensar rápido numa aventura épica que te marcou. Pode ser um filme, um livro, um jogo. Quase sempre é assim: alguém descobre que tem um destino especial, inicia a jornada, enfrenta um vilão poderosíssimo e, depois de muito sacrifício, vence no final.

A gente cresceu assistindo isso. A estrutura é tão comum que a gente nem questiona mais. Mas aí surge uma pergunta: o que acontece depois disso? Se a gente pensar em outro gênero, como as histórias de romance, quase tudo gira em torno da construção do casal. Quando os dois finalmente ficam juntos, a história acaba e eles vivem felizes para sempre.

Só que, aí, o que acontece depois do final feliz?

É justamente aqui que Frieren começa. A obra pega aquela estrutura clássica da jornada do herói e faz uma pergunta muito simples: beleza, você venceu, e agora? O que sobra? E o que sobra, na real, é isso: Himmel, o herói, morre de velhice.

Quando Frieren olha para o caixão, ela entende, com um atraso de décadas, que passou anos viajando com alguém que ela mal conhecia.

É nesse momento que ela percebe que dez anos na vida de um humano representam uma parte enorme da existência de alguém. O que para ela foi apenas uma aventura qualquer, uma lembrança distante entre tantas outras, para ele foi a melhor parte da vida.

Enquanto ela enxergava aquilo apenas como um momento incomum em sua longa jornada, para Himmel foi o que definiu quem ele era. E isso impacta porque é simples. E porque é muito real.

Quem nunca olhou para trás e percebeu, tarde demais, que passou tempo demais focado em uma coisa enquanto ignorava outra que realmente importava mais?

E é justamente aí que a gente começa a entrar na desconstrução da jornada do herói. Mas, antes de falar de desconstrução, acho que vale entender direitinho o que é essa tal jornada, sabe?

Porque ela não é só um conceito que as pessoas adoram usar para dizer que uma história é “clichê”.

A jornada do herói é basicamente um molde, um padrão que se repete em mitos, lendas, livros, filmes e jogos. O cara que organizou isso foi Joseph Campbell, mas você não precisa ter lido nada dele para reconhecer essa estrutura.

Basicamente, ela funciona assim: o herói vive uma vida normal, recebe um chamado para a aventura, resiste no começo, encontra um mentor, atravessa um portal para um mundo desconhecido, enfrenta provações, junta aliados, enfrenta o vilão, quase morre, vence, conquista algum tipo de recompensa e volta para casa transformado. Fim.

E o exemplo clássico é Star Wars: Luke Skywalker, uma fazendeiro comum, recebe o chamado, encontra o mentor, descobre a Força e destrói a Estrela da Morte. Harry Potter, Senhor dos Anéis, Matrix, O Rei Leão. Você já viu isso mil vezes.

E funciona, porque mexe com arquétipos que estão na cabeça da gente há séculos. No entanto, essa estrutura também vicia a gente numa ideia meio enganosa: a de que a vida se resolve depois de um grande clímax.

Ou seja, o herói cumpre a missão, salva o dia e pronto, felizes para sempre. Mas a vida não funciona assim, não é?

Porque depois da batalha final, o sol nasce de novo, as pessoas envelhecem, as memórias se apagam. A maioria das histórias se recusa a olhar para essa parte, porque ela parece menos emocionante, menos épica. Ou, pelo menos, a gente foi acostumado a acreditar que é.

Só que é justamente nesse espaço que Frieren entra. E é exatamente aí que ela responde uma pergunta que quase ninguém faz: por que quase não existem histórias sobre o que acontece depois da jornada do herói?

E, pensando nisso, para ser justo, sim, outras obras também cutucam essa estrutura de maneiras interessantes. Logan, por exemplo: esse Wolverine específico já foi um X-Men, já salvou o mundo várias vezes. Quando começamos a acompanhar a história, ele está velho, ferrado e cuidando do Professor Xavier, que sofre de uma doença degenerativa.

Já não existe mais uma grande missão. Não existe um mundo para salvar. O que existe é o desgaste de um corpo que se curou por décadas e agora está cansado, incapaz de fazer isso da mesma forma de antes.

Já Watchmen mexe nessa ideia de um jeito mais cínico. Os heróis estão aposentados, a sociedade os rejeitou e o mundo continua à beira de uma guerra nuclear.

E aí os heróis percebem que o embate clássico entre o bem e o mal simplesmente não se aplica mais. A jornada do herói, ali, é desmontada porque não existe um clímax perfeito, não existe uma vitória moral clara como em tantos outros filmes de super-herói.

Mas Frieren faz uma parada diferente. Frieren não é amarga. Não é cínica. É sobre ganhar uma segunda chance de percorrer a mesma aventura, só que entendendo o que tudo aquilo significava para as outras pessoas.

É como se a obra dissesse que a jornada do herói não está errada, só que ela está incompleta. Faltou o capítulo em que a gente processa o que viveu, o capítulo em que olha para trás e entende quem eram aquelas pessoas que caminharam ao nosso lado e o quanto elas importavam.

E, na prática, ela refaz o mesmo trajeto, visita as mesmas vilas e reencontra as mesmas pessoas que o grupo ajudou décadas atrás. Só que agora ela não está mais distraída.

Cada estátua erguida em homenagem a Himmel desperta uma lembrança. Cada feitiço bobo que ela aprendeu traz referência ao que ela viveu. E tudo vira uma peça de um quebra-cabeça que lentamente faz Frieren perceber algo que deveria ser óbvio, mas que ela nunca tinha parado para enxergar.

Ela realmente amava aquelas pessoas e guardava carinho por tudo o que viveu. O problema é que nunca percebeu o quanto aquilo era importante enquanto estava acontecendo.

E, aos poucos, ela entende que aqueles míseros dez anos talvez tenham sido tão importantes para ela quanto foram para todos os outros. Talvez até mais.

E aí fica a pergunta: a jornada do herói é realmente algo ruim só porque muitas histórias seguem a mesma estrutura? Ou porque muitas delas não tentam fazer nada interessante com ela? Porque, no fim das contas, o problema está na fórmula ou em quem a utiliza?

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